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Hierarquia religiosa (parte I)

Livres dos Fardos Religiosos

 

Muitas igrejas são totalmente hierarquizadas e estratificadas. Por que, se não encontramos nada disso no evangelho original de Jesus e nem na igreja do primeiro século? Como surgiram todos esses líderes eclesiásticos, onde uns mandam em outros?

 

Na Antiguidade, era comum existir hierarquia na esfera política e religiosa. No antigo Egito, o rei, conhecido como faraó, além de chefe político, era também chefe religioso, abaixo da divindade.[1]. Mas ele deixava outra pessoa exercer a função religiosa no seu lugar. Por isso, existia um sumo sacerdote, seguido por outros sacerdotes dentro de certa hierarquia, cada um com a sua função. [2].

 

Divindade

 

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Faraó

Sumo sacerdote

Sacerdotes

Povo

Descrição: Hierarquia do antigo Egito.Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Hierarquia religiosa é a ordem de dominação e subordinação envolvendo a religião. [3]. É algo muito comum em muitas igrejas, como o catolicismo, e em muitas outras religiões, como o caodaísmo. [4].

 

Entre os hebreus, era considerada a seguinte hierarquia religiosa: Jeová (Deus), um sumo sacerdote, sacerdotes, levitas e o povo. (Levítico 21.) [5], [6], [7].

 

Jeová (Deus)

 

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Sumo sacerdote

Sacerdotes

Levitas

Povo

Descrição: Hierarquia do hebreus (Israel) Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Hierarquia social romana. O conceito de hierarquia fazia parte da cultura greco-romana. Gregos e romanos aprenderam isso com egípcios e babilônios. [8], [9]. Por isso, a sociedade, o exército, a política e a religião, tudo era em forma de hierarquia. Na antiga Roma, na época da monarquia, os reis tinham poderes executivos, judiciais, militares, civis e religiosos. [10], [11], [12]. A sociedade era dividida em quatro classes hierárquicas:

 

1.     Patrícios. Eram homens livres, considerados descendentes dos fundadores de Roma. Somente eles eram considerados cidadãos, com direito de voto, de exercer cargos públicos, comercializar, possuir terras conquistadas, ter propriedades e pertencer ao exército.

2.     Clientes. Esses eram estrangeiros que moravam em Roma, vivendo sob a proteção dos patrícios. Não tinham os mesmos direitos dos patrícios, mas agiam apadrinhados por algum chefe de família da classe dominante.

3.     Plebeus. Esses não eram escravos, mas também não eram considerados cidadãos. Por isso não tinham os direitos que os patrícios tinham. Inclusive, eles não podiam se casar com os patrícios.

4.     Escravos. Ainda havia escravos. Eram prisioneiros de guerra ou filhos vendidos de famílias pobres ou ainda pessoas que se tornavam escravas para pagamento de dívidas. Esses, evidentemente, não possuíam nenhum direito. Havia também os libertos, que eram os escravos que tinham conquistado a sua liberdade. [13]. 

 

Patrícios

 

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Clientes

Plebeus

Escravos

Descrição: Hierarquia social romana. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Hierarquia militar romana. Ainda em Roma, em ordem crescente, o exército era assim:

 

1.     Soldados diversos.

2.     Decurião, que comandava dez soldados. O grupo de dez soldados era conhecido como decúria.

3.     Centurião, que comandava dez decuriões. Cada decurião comandava dez soldados, então, indiretamente, o centurião comandava cem soldados e por isso esse grupo de cem recebia o nome de centúria.

4.     Tribuno que comandava cinco centúrias ou quinhentos soldados com o nome de corte.

5.     Legato (general) que comandava dez tribunos, com um contingente de cerca de cinco mil soldados. Por isso tinha o nome de legião. [14], [15].

 

Legato (general)

 

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Tribuno

Centurião

Decurião

Soldados

Descrição: Hierarquia militar romana. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Hierarquia da divisão político-administrativa diocleciana e constantina. Entre os séculos III e IV, os imperadores romanos Diocleciano e Constantino, para facilitar a administração imperial, resolveram dividir o grande Império Romano em quatro grandes prefeiturasOriente, Ilíria, Itália e Gália, subdividindo cada uma em várias dioceses e estas em várias províncias (paróquias). [16].

 

Império Romano

 

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Prefeituras

Dioceses

Paróquias

Descrição: Hierarquia político-administrativa diocleciana e constantina. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

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Descrição: Mapa do Império Romano com dioceses criadas por Diocleciano. Data: 03/03/09 Autor: Mandrak. Fonte e licença DP.

 

O reino de Deus sem nenhuma hierarquia terrena. Jesus ensinou ao mundo uma nova maneira de buscar a Deus. Ele deixou bem claro que o seu reino não é deste mundo. (João 18.36.) [17]. Em outras palavras, os seguidores das mensagens de Jesus formam a sua igreja, uma comunidade de pessoas, que não é uma nação com diferentes classes sociais, nenhum exército e nenhuma organização religiosa com diferentes graus de autoridade terrena. Ela, a igreja, é um reino espiritual, que não tem nenhum governo humano. Ninguém é maior, ninguém é dono, ninguém pode dominar o outro. Por isso, a verdadeira igreja de Jesus não pode ser dividida, formando uma hierarquia de líderes e classes diferentes, onde uns dominam outros.

 

 

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Descrição: Igualdade cristã. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Para Jesus, entre os seus seguidores, ninguém está acima de ninguém. Quando Tiago e João, os dois filhos de Zebedeu, membros do grupo dos doze apóstolos, pediram a Jesus duas posições privilegiadas, ele respondeu, entre outras palavras: “Como vocês sabem, os governadores dos povos pagãos têm autoridade sobre eles e mandam neles. Mas entre vocês não pode ser assim. Pelo contrário, quem quiser ser importante, que sirva os outros, e quem quiser ser o primeiro, que seja o escravo de todos.” (Marcos 10.35-44, NTLH) [18].

 

Outro dia, os discípulos de Jesus estavam discutindo sobre qual deles seria o maior. Então Jesus respondeu, usando a humildade de uma criança, dizendo que aquele que é o mais humilde, esse é que é o mais importante. (Lucas 9.46-48.) [19].

 

Outra vez, Jesus observando os escribas e os fariseus, que gostavam de ser tratados como cabeças da religião judaica, disse: “Porém vocês não devem ser chamados de “mestre”, pois todos vocês são membros de uma mesma família e têm somente um Mestre. E aqui na terra não chamem ninguém de pai porque vocês têm somente um Pai, que está no céu. Vocês não devem também ser chamados de “líderes” porque vocês têm um líder, o Messias. Entre vocês, o mais importante é aquele que serve os outros.” (Mateus 23.8-11, NTLH) [20].

 

Hierarquia espiritual da igreja no I século. Nos tempos primitivos da igreja, mais precisamente no I século, todos eram iguais, servos uns dos outros. Como vimos, no Antigo Testamento, havia o povo, os levitas, os sacerdotes, o sumo sacerdote e Deus. Mas com a vinda de Jesus, tudo mudou:

 

·          Não precisamos mais de sacerdotes especiais. Hoje todos somos sacerdotes. (I Pedro 2.5 e 9; Apocalipse 1.6; 5.10.) [21]. A igreja de Cristo é, pois, um corpo de sacerdotes.

 

·          Não precisamos mais de sumos sacerdotes humanos. Jesus se tornou o nosso sumo sacerdote para sempre, o único mediador entre nós e Deus. (Hebreus 4.14-15; Hebreus 5.5-6; 6.20; 1 Timóteo 2:5.)  [22].

 

·          Nós somos o corpo de Cristo e seus membros em particular. (1 Coríntios 12:27.) [23]. Nesse corpo, a igreja, onde todos somos sacerdotes, cada um tem uma função específica. “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo.” (Efésios 4.11-12.) [24].

 

·          Mas ninguém é cabeça de ninguém. Ninguém está cima do outro. Somos todos um só corpo e somos membros uns dos outros. “Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação, assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada: se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino; ou o que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com cuidado; o que exercita misericórdia, com alegria. (Romanos 12.4-8, RC. Grifo meu.) [25].

 

·          Jesus é a cabeça da sua igreja. (Efésios 1.22-23.) [26].

 

·          E Deus é a cabeça de Cristo. (1 Coríntios 11:3.) [27].

 

Resumindo num gráfico temos:

 

PAI (DEUS)

 

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Jesus Cristo (Sumo sacerdote)

Todos os cristãos (sacerdotes)

Descrição: Hierarquia espiritual da igreja, no século I. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Essa deve ser a única hierarquia da igreja. O Pai como Deus único, Jesus Cristo como sumo sacerdote e todos nós como sacerdotes, cada um com o seu dom, membro um do outro. Apóstolos, presbíteros, diáconos, evangelistas, professores, profetas e muitas outras funções que surgiram ou que possam surgir são apenas funções diferentes de um único corpo, sob o comando de uma única cabeça: Jesus.

 

Assim foi a igreja primitiva. Ninguém estava acima de ninguém. Todos: apóstolos, pastores, diáconos e outros ministérios eram apenas modos diferentes de servirem à igreja. Não havia nenhuma hierarquia de líderes. Lá encontramos: os diáconos, os anciãos e os apóstolos. Todos, cada um com o seu dom específico, individualmente eram membros uns dos outros. (Romanos 12.4-8.) [28].

 

·       Os apóstolos eram simplesmente mensageiros, levando o evangelho por todos os lados, na companhia de alguns cooperadores. Não agiam como chefes da igreja, mas apenas como semeadores do evangelho, plantando igrejas por todos os lados e procurando ajudá-las com o ensino do evangelho.

·       Os anciãos também não eram chefes de igrejas locais como tem sido ensinado. Eles simplesmente, conforme a tradição, eram um conselho de pessoas idosas, acompanhando o dia a dia das igrejas, não as dominando, mas ajudando-as nos casos mais complicados.

·       Os diáconos cuidavam da parte assistencial, ajudando a distribuir a ajuda que muitos ofereciam às pessoas necessitadas. Não era nenhum grau hierárquico.

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br 



[8] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 74