Disciplina na igreja

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Não podemos ficar passivos nos cantos das capelas, igrejas, basílicas e catedrais. Já vimos, várias vezes, em outras mensagens, que a igreja é o corpo de Cristo. [1]. Ela não pode ser um corpo morto, passivo, apenas assistindo ao que os pastores e padres fazem nos púlpitos e nos altares das igrejas-templos, atuando como sacerdotes. Não! Cada cristão é um sacerdote. Todos podem agir. E a nossa tarefa não é aquela liturgia cansativa, carregada de rituais. Nossa missão é outra.

 

Vimos na mensagem “Conselho de anciões (presbíteros, bispos, pastores) parte II” que quando os apóstolos escreviam as suas cartas às diversas igrejas, eles não as enviavam em nome de nenhum líder. Tudo era tratado diretamente com os irmãos. Os apóstolos sempre se dirigiam à igreja de modo geral e não aos supostos líderes superiores, que muitos julgam que seriam os anciões ou presbíteros. [2].  Os presbíteros são mencionados apenas 23 vezes. Dessas, há apenas três pequenos diálogos diretamente com eles. (Atos 20.7-38; Filipenses 1.1; 1 Pedro 1.1.) [3]. Em nenhuma das 23 citações, eles são tratados como os pastores e os padres das igrejas modernas. Por outro lado, de Atos dos Apóstolos até a terceira carta de João, encontramos a palavra irmãos mais de 180 vezes. Tudo é tratado diretamente com eles sem o intermédio de pastores. [4]. Por quê? Porque todos como sacerdotes deviam ajudar, edificar, encorajar, exortar, aconselhar, admoestar, corrigir e ensinar uns aos outros [5]. Sendo assim, então, a disciplina da igreja não é tarefa, estritamente, de um líder, mas de todos.

 

Disciplina, nesse caso, é o conjunto de princípios e métodos para que a igreja, como grupo de cristãos, possa ser harmoniosa, saudável, pacífica, amistosa, fraterna...

 

 

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Descrição: Os dois homens orando: um humilde e o outro orgulhoso, desprezando o humilde. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Muitos pastores estão preocupados com a falta de disciplina dentro da igreja-templo. Preocupam-se com a falta de reverência, como as conversas e risos que acontecem entre os irmãos, por exemplo. Alguns até exigem que os cristãos tirem seus calçados para entrarem na “casa do Senhor”. [6]. Será que essa é a disciplina que o cristão deve ter? Preocupam-se muito com a igreja-edifício, e se esquecem que cada cristão deve manter o seu corpo santo como templo do Espírito Santo. (1 Coríntios 3:16; 1 Coríntios 6:19; João 14:23; Efésios 2.20-22; 1 Pedro 2.5.) [7]. Não entendem que hoje não temos mais compromissos com templos construídos por mãos humanas, mas que todos nós cristãos, como sacerdotes uns dos outros, temos a obrigação de zelar uns pelos outros. Afinal, cada um é templo de Deus. Muitos estão reverenciando edifícios de tijolos, mas não respeitam o irmão, que realmente deve ser templo vivo do Espírito Santo de Deus. Como fariseus, muitos honram seus elementos religiosos até os mínimos detalhes, mas desprezam, desonram o seu semelhante.

 

Na igreja institucionalizada, o pastor ou padre, na qualidade de presidente, tem a responsabilidade de resolver os problemas que surgem. Quando uma igreja tem algum problema, o padre ou o pastor é convocado para buscar uma solução. Mas na igreja livre do Novo Testamento, todos tinham essa obrigação e esse direito. Veja o que disse Jesus:

 

Pecado de um irmão.Se o seu irmão pecar contra você, vá e mostre-lhe o seu erro. Mas faça isso em particular, só entre vocês dois. Se essa pessoa ouvir o seu conselho, então você ganhou de volta o seu irmão. Mas, se não ouvir, leve com você uma ou duas pessoas, para fazer o que mandam as Escrituras Sagradas. Elas dizem: ‘Qualquer acusação precisa ser confirmada pela palavra de pelo menos duas testemunhas.’ Mas, se a pessoa que pecou não ouvir essas pessoas, então conte tudo à igreja. E, se ela não ouvir a igreja, trate-a como um pagão ou como um cobrador de impostos.” (Mateus 18. 15-17. NTLH) [8]. Em outras palavras, ela, a pessoa que não quis reconhecer o erro, deve ser considerada como um estranho.

 

Note que não foi citado ninguém com título de ancião, presbítero, bispo ou pastor para resolver o problema do pecado entre uma pessoa e você. Não foi indicado nenhum padre para que o irmão pecador pudesse procurar para fazer uma confissão. O que Jesus disse é que você mesmo deve procurar a pessoa e tentar resolver o problema. Se não conseguir, poderá levar mais duas pessoas. Se ainda não conseguir, poderá levar o caso para uma reunião de cristãos. Mas é claro que tudo isso precisa ser feito com calma, educação, humildade, delicadeza; sem gritaria, falatórios, orgulho e raiva. E é preciso estar disposto a perdoar o erro do outro. Veja esse conselho de Paulo: “Fique longe das discussões tolas e sem valor, pois você sabe que elas sempre acabam em brigas. O servo do Senhor não deve andar brigando, mas deve tratar todos com educação. Deve ser um mestre bom e paciente, que corrige com delicadeza aqueles que são contra ele. Pois pode ser que Deus dê a eles a oportunidade de se arrependerem e de virem a conhecer a verdade.” (2 Timóteo 2.23-25, NTLH.) [9].

 

 

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Descrição: Cena que lembra uma reconciliação. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

A Bíblia continua no Novo Testamento: “Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros...” (Tiago 5:16 a, NTLH.) [10]. Não é nenhum líder religioso que vai perdoar o pecado do irmão. É Deus e a pessoa que foi ofendida que devem perdoar os pecados. “E perdoem uns aos outros, assim como Deus, por meio de Cristo, perdoou vocês.” (Efésios 4:32b, NTLH.) [11]. “Não fiquem irritados uns com os outros e perdoem uns aos outros, caso alguém tenha alguma queixa contra outra pessoa. Assim como o Senhor perdoou vocês, perdoem uns aos outros.” (Colossenses 3:13, NTLH.) [12]. “E, quando estiverem orando, perdoem os que os ofenderam, para que o Pai de vocês, que está no céu, perdoe as ofensas de vocês.” (Marcos 11:25, NTLH.) [13]. “Perdoem os outros, e Deus perdoará vocês.” (Lucas 6.37b, NTLH.) [14].

 

Percebeu? O padre ou o pastor não podem fazer nada nesse sentido.

É você, o ofendido, e o ofensor que devem resolver a situação. Rituais com qualquer líder religioso não vai resolver o problema. Não adianta nada praticar rituais e ficar de “cara amarrada” pro outro, com o coração carregado de ressentimento.

 

Nas cartas apostólicas, não eram os presbíteros, supostos líderes da igreja local, que eram convocados para resolverem os problemas da igreja, mas todos. Vejamos alguns exemplos:

 

Exortação (conselhos). Nas igrejas institucionalizadas, o pastor ou o padre é a pessoa indicada para exortar e dar conselhos. Mas na igreja do Novo Testamento, essa tarefa não era do pastor propriamente dito, mas de todos. Escrevendo aos romanos, Paulo declara: “Meus irmãos, estou certo de que vocês estão cheios de bondade, sabem tudo o que é preciso saber e são capazes de dar conselhos uns aos outros.” (Romanos 15.14, NTLH.) [15]. Para os irmãos da Galácia, não exatamente para os pastores, falou: ”Meus irmãos, se alguém for apanhado em alguma falta, vocês que são espirituais devem ajudar essa pessoa a se corrigir. Mas façam isso com humildade e tenham cuidado para que vocês não sejam tentados também.” (Gálatas 6.1, NTLH.) [16]. E para a igreja, não para o pastor, de Tessalônica, suplicou: “Rogamo-vos também, irmãos, que admoesteis os desordeiros” (1 Tessalonicenses 5:14a, RC.) [17].

 

Hoje em dia, muitos não querem ser exortados por qualquer um, mas apenas pelo pastor ou padre. Alguns não querem exortações de forma alguma. Por outro lado, muitos querem exortar os outros com grosserias, gritarias e orgulho. Dessa forma, ninguém consegue nenhum resultado, e acabam botando mais lenha na fogueira. Mas o método da igreja do Novo Testamento é o seguinte: Todos, incluindo os anciões, podem e devem exortar uns aos outros com bons modos, educação, humildade, calma, delicadeza, amor e perdão. Todavia, ninguém pode impor nada. Ninguém deve ser chato, pegajoso, agindo como se fosse chefe ou vigia do outro.

 

 

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Descrição: Contenda na igreja de Corinto. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Contendas na igreja de Corinto. Na igreja da cidade grega de Corinto, cada um dizia uma coisa diferente. Um dizia: “Eu sou de Paulo”; outro: “Eu sou de Apolo”; outro: “Eu sou de Pedro”; e ainda outro, “Eu sou de Cristo”. Paulo poderia ter chamado o pastor de lá para dar um jeito naquela situação. Mas nenhum pastor foi convocado para resolver o problema. (1 Coríntios 1.10-13.) [18]. Então, Paulo já começa dizendo a todos: “Irmãos, peço, pela autoridade do nosso Senhor Jesus Cristo, que vocês estejam de acordo no que dizem e que não haja divisões entre vocês. Sejam completamente unidos num só pensamento e numa só intenção.” (Verso 10, NTLH.) Paulo não chamou a atenção de nenhum líder. Lá não havia líder nos moldes atuais. Ele corrigiu a todos diretamente, e todos deviam dar um jeito.

 

Fornicação (relação sexual ilícita) na igreja de Corinto. Certo homem, naquela mesma igreja, estava tendo relações sexuais com a sua madrasta. Como podemos ver, era um pecado extremamente grave. Mas mesmo assim, nenhum pastor foi convocado para dar um jeito naquele homem. No entanto, todos os irmãos foram convocados para expulsarem aquela pessoa do meio deles. (1 Coríntios 5.) [19]. Paulo declarou: “Na outra carta que escrevi a vocês, eu recomendei que vocês não tivessem nada a ver com gente imoral. Eu não quis dizer que neste mundo vocês devem ficar separados dos pagãos que são imorais, avarentos, ladrões ou que adoram ídolos. Pois, para evitar essas pessoas, vocês teriam de sair deste mundo. O que eu digo é que vocês não devem ter nada a ver com ninguém que se diz irmão na fé, mas é imoral, ou avarento, ou adora ídolos, ou é bêbado, ou difamador, ou ladrão. Com gente assim vocês não devem nem comer uma refeição.” (Versos 9-11, NTLH.)

 

Litígios entre os irmãos de Corinto. Essa igreja tinha problemas demais. Se fosse hoje, seria enviado um pastor ou padre bem rígido para lá. Mas não foi o que aconteceu. Paulo disse que, em caso de alguma demanda, não era para eles irem atrás de nenhum juiz desse mundo, como estavam fazendo. No entanto, não foi indicado nenhum pastor para atuar como juiz deles. Eles deviam fazer isso, procurando resolver tudo entre eles mesmos. (1 Coríntios 6.) [20]. Paulo disse: “Que vergonha! Será que entre vocês não existe alguém com bastante sabedoria para resolver uma questão entre irmãos? É claro que existe. Mas o que acontece é que um irmão em Cristo leva ao tribunal a sua queixa contra outro irmão e deixa que juízes pagãos julguem o caso.” (Versos 5-6, NTLH.)

 

Bagunças nas festas do ágape em Corinto. Os coríntios, bagunçados como sempre, tiveram que ser repreendidos para que houvesse ordem durante as refeições de confraternização, nas Festas do Ágape. A ceia que eles tomavam, nessas festas, era uma profanação do evangelho, que fala de união, amor, cuidado com o pobre...  Mas entre eles, havia brigas. Os mais abastados comiam sem esperar os outros. Alguns ficavam bêbados. E os pobres eram envergonhados. Estavam fora dos princípios do evangelho de Jesus. Suas festas estavam virando festas mundanas, perdendo as características cristãs. (I Coríntios 11.17-34.) [21]. A ceia não era para ser um momento carregado de liturgia, mas precisava ter ordem, educação, respeito. Afinal era uma refeição de irmãos em Cristo, onde havia o pão e o vinho como recordação da obra de Jesus. Eles foram convocados para darem um basta em tudo aquilo. Mas nenhum pastor foi chamado para entrar em ação.

 

Ordem nas reuniões. Ainda na igreja de Corinto, parece que as suas reuniões estavam meio bagunçadas. Então, Paulo dá alguns conselhos para eles. Ele indicou algum presbítero para dirigir as reuniões? Não! Paulo, escrevendo aos coríntios, deu instruções para que eles mesmos mantivessem a ordem, evitando confusões. (1 Coríntios 14.26-34a, NTLH.) [22].

 

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Descrição: Cena que lembra um ensinando o outro. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Ensino. Hoje em dia, muitas igrejas institucionalizadas conservam a tradição de querer resolver tudo com sermões. No entanto, para a maioria das pessoas, não passam de meros discursos ritualísticos proferidos com cerimônias, do púlpito ou do altar. Mas a disciplina precisa acontecer por meio do ensino de todos. Todos devem e podem ensinar uns aos outros. “Que a mensagem de Cristo, com toda a sua riqueza, viva no coração de vocês! Ensinem e instruam uns aos outros com toda a sabedoria.” (Colossenses 3:16a, NTLH.) [23]. Esse foi o mandamento de registrado por Paulo.

 

Como já vimos, os pastores da Bíblia eram um conselho de anciões que ajudavam a resolver muitos problemas difíceis das igrejas, como o caso da judaização do evangelho, resolvido pelos apóstolos e por eles, reunidos em Jerusalém, (Atos 15.) [24]. Esse conselho de idosos experientes servia para dar opiniões sábias para os casos mais complicados. Mas os problemas, de modo geral, eram solucionados por todos.

 

O pastor não é a pessoa indicada para carregar todas as responsabilidades da igreja. Por isso, os pastores daquele tempo não viviam sobrecarregados de atividades. Além de serem muitos, como já vimos noutra mensagem, as responsabilidades da igreja eram de todos. [25]. Considerando dessa forma, os líderes das igrejas (presbíteros, bispos, padres, pastores, etc.) deixam de ser pessoas grandes, acima do povo, e passam a ser apenas mais um membro atuando do corpo, longe de serem cabeças, ocupando o seu devido lugar, cá em baixo, entre todos, jamais acima, querendo ocupar o lugar de Cristo e de Deus.

 

Muitos são verdadeiros santos dentro da igreja, perto do pastor ou do padre. Mas fora dali, agem como se não fossem cristãos. Por quê? Porque acabou aquela idéia de que todos podem ser sacerdotes uns aos outros. Essa tarefa, na igreja institucionalizada, ficou para o padre ou pastor. Então, longe deles, as pessoas não têm nenhum respeito uns pelos outros irmãos na fé, tampouco com os de fora. Compram e não pagam, falam mal dos outros, humilham os mais fracos, se exibem, adulteram, roubam, mentem, não aceitam correções, não querem conselhos... O pastor ou padre, lá no seu templo, ocupado com a sua liturgia, dirigindo uma igreja com 100, 200, 500, 1000 ou mais membros, jamais vai conseguir acompanhar o dia a dia das pessoas. Dessa forma, elas poderão fazer o que quiserem e não acharão ninguém para ensiná-las, aconselhá-las ou exortá-las. Mas se for como era no princípio da igreja, todos cuidarão de todos. Todos poderão e deverão disciplinar uns aos outros para sermos sempre templos dignos do Espírito Santo. Era assim no princípio. É assim que deve ser ainda hoje. Precisamos resgatar tudo isso, para que a igreja seja mais sadia. Vamos assumir a nossa posição como sacerdotes uns dos outros.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br