Diáconos II

Continuação do post anterior.

Livres dos Fardos Religiosos

 

 

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Descrição: Escolha dos primeiros diáconos. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

 

A origem dos diáconos.

 

 “Algum tempo depois, o número de judeus que se tornaram seguidores de Jesus aumentou muito, e os que tinham sido criados fora da terra de Israel começaram a se queixar dos que tinham sido criados em Israel. A queixa deles era que as viúvas do seu grupo estavam sendo esquecidas na distribuição diária de dinheiro. Então os doze apóstolos reuniram todo o grupo de seguidores e disseram: ‘Não está certo nós deixarmos de anunciar a palavra de Deus para tratarmos de dinheiro. Por isso, irmãos, escolham entre vocês sete homens de confiança, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, e nós entregaremos esse serviço a eles. Assim nós poderemos continuar usando todo o nosso tempo na oração e no trabalho de anunciar a palavra de Deus.’ Todos concordaram com a proposta dos apóstolos. Então escolheram Estevão, um homem cheio de fé e do Espírito Santo, e também Filipe, Prócoro, Nicanor, Timom, Pármenas e Nicolau de Antioquia, um não-judeu que antes tinha se convertido ao Judaísmo. Esses homens foram levados aos apóstolos, que oraram e puseram as mãos sobre a cabeça deles. A palavra de Deus continuava a se espalhar. Em Jerusalém o número dos seguidores de Jesus crescia cada vez mais, e era grande o número de sacerdotes judeus que aceitavam a fé cristã.” (Atos 6.1-7, NTLH.) [1].

 

 

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Descrição: Diaconato = serviço assistencial da igreja. Data: agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Então, os primeiros diáconos eram pessoas que socorriam os pobres, as viúvas e os necessitados em geral. Eles prestavam serviços gratuitos às pessoas necessitadas da comunidade, procurando distribuir aos necessitados a ajuda oferecida pela igreja. O diaconato era, pois, o serviço de assistência social da igreja. E os apóstolos continuaram com a assistência espiritual. Os apóstolos mandaram o povo cristão escolher os diáconos, dando para eles algumas qualidades necessárias: tinham que ser homens de confiança, cheios do Espírito Santo e de sabedoria. Eles escolheram sete homens. E os apóstolos confirmaram os sete como diáconos.

Observe como a igreja tinha poder de decisão. Não estava dominada por nenhum líder. Foi o povo e não os presbíteros ou apóstolos que escolheram os diáconos. Mas esse não é o assunto agora. Vamos continuar falando sobre o diaconato.

 

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Descrição: Características do diácono. Data: agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

A idéia de ter diáconos vingou. Nas igrejas que foram surgindo em outras cidades, eles foram sendo escolhidos. Por isso, Paulo se lembrou dos diáconos que viviam em Filipos. (Filipenses 1.1-2.) [2]. Para Timóteo, que estava na cidade de Éfeso, cuidando da igreja, ele disse que os diáconos tinham que se homens de palavra e sérios, não bebedores de muito vinho, nem gananciosos. Tinham que saber governar bem os seus filhos e toda a sua família. A esposa do diácono tinha que ser uma mulher respeitável, moderada e fiel em tudo. Não podia ser faladeira. Ele devia ter apenas uma esposa, uma vez que era normal haver homens com mais de uma esposa, costume oriental muito comum, conhecido como poliginia, um tipo de poligamia. (I Timóteo 3.8-12.) [3].

 

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Descrição: Repartir. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

Mas não era somente em Jerusalém que os cristãos eram bondosos, solidários e misericordiosos como Jesus havia ensinado. Por exemplo:

·       Em Jope, a 56 km de Jerusalém, uma seguidora de Jesus chamada Tabita, usava todo o seu tempo fazendo o bem e ajudando os pobres. (Atos 9.36.) [4].

 

·       Em Cesaréia, lá pras bandas de Samaria, na costa do mar Mediterrâneo, um centurião romano (oficial que comandava cem soldados) chamado Cornélio era um homem muito bondoso. Ele ajudava muito as pessoas pobres e acabou virando um cristão exemplar. (Atos 10.1-4.) [5].

 

·       Na época de uma grande crise, as igrejas da longínqua província romana da Acaia, onde fica a Grécia, e as igrejas da província da Macedônia, lá longe, ao norte da Grécia, resolveram mandar ofertas para socorrer o povo necessitado de Jerusalém. (Romanos 15:26.) [6].

 

·       Os irmãos da igreja de Antioquia, na Síria, mandaram ajuda para os irmãos da Judéia. (Atos 11.27-30.) [7]

 

·       Os irmãos da igreja de Corinto, lá na Grécia, também foram incentivados a mandar ajuda para os irmãos da Judéia. (I Coríntios 16.1-3.) [8].

 

·       A igreja de Filipos, na região da Macedônia, ajudou Paulo em suas necessidades. (Filipenses 4.15-18.) [9].

 

·       Paulo, escrevendo aos romanos disse: “Repartam com os irmãos necessitados o que vocês têm...” (Romanos 12:13, NTLH.) [10].

 

·       Ele, escrevendo aos coríntios, elogia as igrejas da Macedônia, mostrando como elas foram generosas ao enviar ajuda para os irmãos necessitados da Judéia. “Os irmãos dali têm sido muito provados pelas aflições por que têm passado. Mas a alegria deles foi tanta, que, embora sendo muito pobres, eles deram ofertas com grande generosidade.” (II Coríntios 8:2, NTLH.) [11].

 

 

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Descrição: A pequena oferta da viúva. Data: século XIX. Autor: Gustave Doré. Fonte e licença DP.

 

 

Então ele incentiva os coríntios a fazerem o mesmo: “Minha opinião sobre o assunto é esta: é melhor para vocês que terminem agora o que começaram no ano passado. Vocês foram os primeiros não somente a ajudar, mas também a querer ajudar. Portanto, continuem e completem o trabalho. Façam isso com o mesmo entusiasmo que tiveram no princípio, dando de acordo com o que têm. Porque, se alguém quer dar, Deus aceita a oferta conforme o que a pessoa tem. Deus não pede o que a pessoa não tem. Não estou querendo aliviar os outros e pôr um peso sobre vocês. Já que agora vocês têm bastante, é justo que ajudem os que estão necessitados. Em alguma outra ocasião, se vocês precisarem, e eles tiverem bastante, aí eles poderão ajudá-los. Assim todos são tratados com igualdade. Como dizem as Escrituras Sagradas: Ao que muito pegou, nada sobrou; ao que pouco pegou, nada faltou.’” (II Coríntios 8:10-15, NTLH.) [12].

 

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Descrição: O semeador. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

 

Ele mostrou para eles a lei da semeadura. “Lembrem disto: quem planta pouco colhe pouco; quem planta muito colhe muito. Que cada um dê a sua oferta conforme resolveu no seu coração, não com tristeza nem por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria. E Deus pode dar muito mais do que vocês precisam para que vocês tenham sempre tudo o que necessitam e ainda mais do que o necessário para fazerem todo tipo de boas obras. Como dizem as Escrituras Sagradas: ‘Ele dá generosamente aos pobres, e a sua bondade dura para sempre.’ E Deus, que dá a semente para semear e o pão para comer, também dará a vocês todas as sementes que vocês precisam. Ele fará com que elas cresçam e dêem uma grande colheita, como resultado da generosidade de vocês. Ele fará com que vocês sejam sempre ricos para que possam dar com generosidade. E assim muitos agradecerão a Deus a oferta que vocês estão mandando por meio de nós.” (II Coríntios 9.6-11, NTLH.) [13].

 

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Descrição: Criança desnutrida. Data: 20/01/2007. Autor: Malnourishedtwat / Graeme Dott. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Observação. Esse trecho da carta de Paulo tem sido usado por muitos pregadores para conseguirem arrancar dinheiro do povo, principalmente por muitos pregadores da teologia da prosperidade. As palavras de Paulo são muito bonitas e encorajadoras. Mas o que muitos não dizem é que ele estava pedindo ajuda para os pobres da Judéia. Não estava pedindo dinheiro para nenhum império religioso particular para gastar com um monte de coisas que não têm nada a ver com o evangelho puro e assistencial. Jesus falou um dia: “Eu afirmo a vocês que isto é verdade: quem, apenas por ser meu seguidor, der ainda que seja um copo de água fria ao menor dos meus seguidores, certamente receberá a sua recompensa.” (Mateus 10:42, NTLH.) [14]. Trata-se da ajuda ao próximo. Não tem nada a ver com esses pedidos insistentes de pregadores sedentos por dinheiro. Se fosse hoje, Paulo certamente estaria arrecadando dinheiro para pessoas como a criança da foto. Ele não ficaria frio diante de uma criança inanida, mostrando seus pequenos ossos, chorando de fome, enquanto as igrejas choram de hipocrisia com seus meros rituais vazios de amor ágape.

 

 

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Descrição: Amor ao próximo. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

·       Para os gálatas, Paulo escreveu o seguinte: “Ajudem uns aos outros e assim vocês estarão obedecendo à lei de Cristo.” (Gálatas 6:2 , NTLH.) [15].

·       Para os efésios: “Quem roubava que não roube mais, porém comece a trabalhar a fim de viver honestamente e poder ajudar os pobres.” (Efésios 4:28, NTLH.)  [16].

·       E para os tessalonicenses: “Portanto, animem e ajudem uns aos outros, como vocês têm feito até agora.” (I Tessalonicenses 5.11, NTLH.) [17].

·       E João destacou: “Se alguém é rico e vê o seu irmão passando necessidade, mas fecha o seu coração para essa pessoa, como pode afirmar que, de fato, ama a Deus? Meus filhinhos, o nosso amor não deve ser somente de palavras e de conversa. Deve ser um amor verdadeiro, que se mostra por meio de ações. (I João 3.17-18, NTLH.) [18].

 

 

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Descrição: Até o século II. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

Nas reuniões da Igreja, no século II, segundo Justino, havia o recolhimento de ofertas para as pessoas necessitadas. Veja o que ele escreveu: “Os que possuem muitos bens dão livremente o que lhes agrada. O que se recolhe é colocado à disposição do que preside. Este socorre os órfãos, as viúvas e os que, por doença ou qualquer outro motivo se acham em dificuldade, bem como os prisioneiros e os hóspedes que chegam de viagem; numa palavra, ele assume o encargo de todos os necessitados” (Justino - I Apologia Cap. 66-67 : PG 6,427 - 431). [19]. Nessa época, a Igreja já estava se desviando do evangelho original, mas ainda havia a preocupação com os necessitados.

 

 

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Descrição: Virtudes cristãs. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

Pois é, nesse estilo de vida cristão, onde o amor, a bondade, a misericórdia, a solidariedade são virtudes comuns, é necessário que haja algumas pessoas com o ofício de recolher ajuda, identificar aqueles que realmente estão com necessidades e distribuir a ajuda recebida para eles. Essa foi e deveria ser sempre a tarefa dos diáconos, servos especiais na área da assistência social cristã.

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br