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Conselho de anciões (presbíteros, bispos, pastores) Parte IV

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos.

 

 

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Descrição: Entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. (Mateus 21.). Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Hoje, muitos líderes de igreja acham que fazem parte de uma classe que pode gozar do bem e do melhor dessa terra, enquanto uma multidão de fiéis, nos pequenos barracos, debaixo dos barrancos, perto dos rios, nas enchentes e até sem teto, sofrem. Muitos querem mansões em condomínios de luxo, carros do ano, importados, ternos de linho fino, hospedagem em hotéis cinco estrelas, perfumes franceses e ainda querem jatinhos, tudo em nome de Jesus, bancados com o dinheiro dos fiéis. Se cada um desses fosse Jesus, entraria em Jerusalém em seu próprio e grande cavalo branco de puro sangue, jamais em uma jumenta emprestada. Aquele pequeno animal, onde o cavalgante fica com os pés quase se encostando ao chão, seria humilhante demais para os “reverendos e doutores” dos nossos dias. Esses teriam travesseiros macios dentro das melhores hospedagens para reclinarem a cabeça em suas turnês gospel. Mas lá estava o exemplo de um verdadeiro e bom pastor que muitos não aprenderam a imitar. (João 10.10-18.) [1]


Paulo disse para os presbíteros ou bispos da igreja de Éfeso, e serve para os pastores de hoje: “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho que o Espírito Santo entregou aos seus cuidados, como pastores da Igreja de Deus, que ele comprou por meio do sangue do seu próprio Filho. Pois eu sei que, depois que eu for, aparecerão lobos ferozes no meio de vocês, e eles não terão pena do rebanho. E chegará o tempo em que alguns de vocês contarão mentiras, procurando levar os irmãos para o seu lado. Portanto, fiquem vigiando e lembrem que durante três anos, de dia e de noite, eu, chorando, não parei de ensinar cada um de vocês.” (Atos 20.28-31, NTLH.) [2].

 

Pedro disse para os presbíteros da Ásia Menor: “Eu, que também sou presbítero, dou agora conselhos aos outros presbíteros que estão entre vocês. Sou uma testemunha dos sofrimentos de Cristo e vou tomar parte na glória que será revelada. Aconselho que cuidem bem do rebanho que Deus lhes deu e façam isso de boa vontade, como Deus quer, e não de má vontade. Não façam o seu trabalho para ganhar dinheiro, mas com o verdadeiro desejo de servir. Não procurem dominar os que foram entregues aos cuidados de vocês, mas sejam um exemplo para o rebanho.” (I Pedro 5.1-3, NTLH. Grifo meu.) [3]. Mas o que temos visto são líderes sedentos de dinheiro, dominadores, atuando, não como servos, mas como ocupantes de cargos privilegiados bancados pelo povo. As vezes chamam a si mesmos de servos, por pretensa humildade, mas, na verdade, agem como patrões do mundo gospel.  

 

 

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Descrição: Lobo polar. Parece bonzinho, mas é um lobo devorador. Data: 24 de março de 2007. Autor: Gunnar Ries. Fonte. Licença CC BY-SA.

Quando Jesus disse para Pedro “Apascenta os meus cordeiros. Pastoreia as minhas ovelhas. Apascenta as minhas ovelhas” (João 21.15-17, RC) [4]. Ele estava mostrando que o líder cristão é como um pastor que cuida das ovelhas. Ele via uma multidão de pessoas aflitas e exaustas como ovelhas que não tinham pastor. (Mateus 9.36.) [5]. Por isso, muitos recebem o dom para esse ministério. Mas não é um ministério como esse que tem acontecido ao longo da história. Apascentar significa levar as ovelhas ao pasto para se alimentarem. Simbolicamente é isso que o pastor precisa fazer. Mas muitos têm sido lobos devoradores de ovelhas. Têm cara de ovelhas, mas interiormente são lobos roubadores. (Mateus 7:15.) [6]. Por isso, Jesus disse que estava enviando seus discípulos como ovelhas para o meio de lobos. (Mateus 10.16.) [7]. Outros não são lobos, mas são mercenários. Trabalham apenas para ganhar seu salário. “O mercenário, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge; então, o lobo as arrebata e dispersa.” (João 10.12, RA.) [8].

 

Muitos pastores, padres e bispos, apesar de estarem, equivocadamente, ocupando uma posição indevida, não são lobos. Muitos são pessoas de bem, agindo com boa vontade. São vítimas do sistema religioso tradicional, precisando achar uma saída. Estão presas, sem saber como sair de todo esse emaranhado religioso. Não são lobos disfarçados de ovelhas. São ovelhas, forçadamente, vestidas com peles de lobos pelo sistema religioso opressor, precisando ser resgatadas. São as atuais “ovelhas perdidas” do novo Israel de Deus. (Mateus 10:6.) [9]. Há muitas ovelhas perdidas, presas em outros currais eclesiásticos. Precisamos resgatá-las para o curral do verdadeiro evangelho, onde poderão entrar e sair e achar pastagens, formando um só rebanho, com apenas um pastor, que é Jesus. (João 10.7-9,16.) [10]. Essas não podem ficar abandonadas. Jesus, o bom pastor, deseja encontrar, ainda que seja uma única ovelha perdida. (Lucas 15.4-7.) [11]

 

 

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Descrição: Farisaísmo moderno. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Mas por outro lado, muitos são verdadeiramente lobos devoradores, mercenários, falsos cristos e falsos profetas fazendo tão grandes sinais e prodígios, para enganar, se possível, até os escolhidos, conforme profetizou Jesus. (Mateus 7.15-23; João 10.12-13; Mateus 24.24.) [12]. Precisamos, mais do que nunca, observar se há frutos e não milagres. A grande quantidade de milagres e prodígios ostentados pelas igrejas não os qualificam como verdadeiros. Apenas os frutos da humildade, do amor, da bondade, da solidariedade, da tolerância, da paz, da simplicidade, dentre outros, provam que são verdadeiros dentro do caminho certo, ou verdadeiros embaraçados no sistema, precisando de socorro. Mas o orgulho, a ostentação, a ganância, a avareza, o preconceito, a discriminação, a intolerância, o ódio e tantos outros frutos maus são indícios de que são realmente falsos. Sejamos prudentes como as serpentes, e símplices como as pombas. (Mateus 10.16.) [13].

 

Não podemos condenar esses líderes que caíram na tentação de Roma e ainda estão por lá. Certamente alguns foram gananciosos, mas outros talvez tenham pensado que estavam fazendo a coisa certa, cometendo um equívoco. Qualquer um corre o risco de cair na mesma armadilha. Somente Deus poderá julgá-los. Não estamos aqui para apontar quem realmente foram e são os falsos dignos da condenação. Mas diante dessas verdades, não podemos continuar nesse caminho. Precisamos voltar ao primeiro amor. Precisamos ver o que nos fez cair. Vamos nos arrepender dos nossos erros, e voltar a fazer o que faziam no princípio. (Apocalipse 2:4-5.) [14].

 

Não somos contra a existência do ministério do pastor. Hoje essa função ainda é verdadeira. Devemos apoiar e aceitar quem realmente tem esse dom divino. Mas apenas devemos apoiar os pastores dentro da forma simples e original. Devemos refutar esses líderes sedentos de títulos honoríficos que se vestem diferentes, querem ganhar altos salários, agem como se fossem donos de igrejas, não aceitam críticas e que querem barrar outros que têm esse dom, porque não querem ver seu ministério particular dividido com ninguém. Não podemos calar a voz dos verdadeiros pastores simples, humildes, realmente escolhidos pelo Espírito Santo, que querem apascentar as ovelhas nos livres pastos verdejantes, onde há fontes de águas vivas, sem querer tosquiá-las ou dominá-las atrás das cercas denominacionais. Eles são importantes porque têm o dom de Deus e a sabedoria para poderem ajudar as ovelhas, pois nesse pasto livre há também lobos ferozes. Os verdadeiros pastores são os anciões, cheios de sabedoria do alto, hoje esquecidos nos cantos, sem paramentos, sem títulos, sem igrejas templos, irreconhecíveis diante das igrejas institucionalizadas. Precisamos voltar às origens e reconhecer essas pessoas.

 

O grupo (o núcleo de confraternização, a pequena igreja livre nos lares) pode caminhar sem pastores, mas terão dificuldades. Todavia, é melhor caminhar com dificuldades, até que Deus possa levantar pastores de verdade, dentro do modelo da igreja primitiva, do que caminhar com falsos pastores. Por isso, como disse Paulo: “Não tenha pressa de colocar as mãos sobre alguém para dedicá-lo ao serviço do Senhor.” (1 Timóteo 5:22a, NTLH) [15]. Tenha calma! No tempo certo, Deus colocará pessoas certas à disposição da igreja.

 

Nem toda igreja tinha pastores logo no início. Por exemplo: na ilha de Creta, as igrejas ficaram sem pastores até que Paulo enviou para lá o seu companheiro Tito, para que ele pudesse reconhecer, em cada cidade, os presbíteros das igrejas. (Tito 1.5.) [16]. Também em Antioquia da Psídia, Icónio, Listra e Derbe, os presbíteros foram reconhecidos depois. (Atos 14.1-23.) [17]. Eles não podiam ser escolhidos de qualquer maneira apenas para ocupar uma vaga. A igreja caminhava sem pastor até que alguns fossem reconhecidos com os requisitos necessários.

 

Façamos o mesmo hoje em dia.  Em cada núcleo de confraternização, cada igreja no lar, não existe uma vaga, propriamente dita, para ser preenchida por qualquer um como pastor. Os cristãos, na qualidade de sacerdotes, com o auxílio de um moderador, guiados pelo Espírito Santo, cuidarão uns dos outros, até que Deus possa levantar pessoas com essa capacidade, não para serem cabeças, presidentes, gerentes ou donos da igreja. Eles devem ser reconhecidos para serem apenas auxiliadores, ajudadores, supervisores, conselheiros, resolvendo as questões difíceis. Então, o grupo deve ficar sempre atento para reconhecer aqueles que sejam irrepreensíveis, esposos de uma só mulher, moderados, prudentes e simples, hospitaleiros, aptos para ensinar; que não sejam bebedores de vinho, nem briguentos, mas pacíficos e calmos; que não sejam avarentos (muito apegados ao dinheiro); que sejam bons pais de família, com capacidade de criar os filhos sob disciplina e com todo o respeito; que não sejam pessoas convertidas há pouco tempo e que sejam também pessoas respeitadas até mesmos por aqueles que não sejam cristãos. (I Timóteo 3.1-7 e Tito 1:5-9.) [18]. Além de tudo isso, não podemos nos esquecer da idade. Ancião ou presbítero, como essas palavras indicam, precisam ser pessoas idosas e idôneas. Não basta que sejam anciões na idade e crianças na fé. Mesmo tendo boa idade, é preciso também ter bom tempo de experiência cristã. Encontrando pessoas com esses requisitos, a igreja deve reconhecê-las como presbíteros, anciões ou pastores, não importa o título. O que importa é a função. São a respeito desses que Paulo disse: “Irmãos, pedimos a vocês que respeitem aqueles que trabalham entre vocês, isto é, aqueles que foram escolhidos pelo Senhor para guiá-los e ensiná-los.” (I Tessalonicenses 5.12, NTLH.) [19]. Devemos honrar a todos (1 Pedro 2.17; Romanos 12.10.) [20].  Mas “os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina.” (I Timóteo 5.17, RC.) [21].

 

Outra observação muito importante. A igreja, como já vimos anteriormente, poderá ter qualquer quantidade de pastores que Deus escolher. Não existe pastor único no Novo Testamento. Não somos nós que definimos a quantidade de presbíteros (anciões, pastores, bispos, seja lá qual for a denominação usada). É Deus quem decide quantos haverá em cada lugar. Nós apenas devemos reconhecê-los.  Eles não disputarão uma vaga. Eles formarão uma comissão, na quantidade certa, conforme a vontade de Deus.

 

Quando o grupo tiver anciões por perto, ninguém deverá se sentir inferior, diminuído, discriminado, desvalorizado diante deles. Lembrem-se: eles não são melhores, não ocupam nenhuma posição elevada. O que acontece é que eles já possuem muitos anos de experiências. Muitos jovens, principalmente na área da tecnologia, são mais espertos que os velhos. Mas eles, por causa do tempo na escola da vida, têm muito mais experiência, muito mais sabedora de vida. E sendo escolhidos por Deus, terão conhecimento do alto. Ninguém precisa se sentir discriminado diante deles. Afinal, cada um com o seu dom, tudo no tempo certo, é importante no corpo de Cristo. Nem toda pessoa com idade avançada fará parte do conselho de anciões. Isso também não significa que alguns velhos não têm valor. Pode ser que alguns, mesmo com a idade avançada, terão que seguir outro dom divino. Todos, cada um onde Deus quiser colocar, formamos um corpo saudável –– a igreja livre e perfeita.

 

 

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Descrição: Igreja de auditório. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

A igreja institucionalizada tornou-se passiva, uma igreja de auditório, que tem que engolir, calada, com medo, tudo que o clero faz e diz. Afinal, os “homens de Deus”, como “ungidos do Senhor”, não aceitam ser criticados, corrigidos ou questionados pelo povo. Sentem-se grande, acima do povo, privilegiados dentro de uma classe santa, especial, infalível e intocável. Cá, em baixo, uma assembléia que canta, ora, dá dízimos e ofertas e tem que obedecer, sem questionamentos, tudo que o mestre (padre, bispo ou pastor) mandar. Como marionetes, fazem o que ordenam: palmas, glórias, leituras e orações responsivas, chavões e frases de efeito. Lá, em cima, uma cadeira diferente inspirada na velha cátedra do juiz romano e o púlpito (tribuna) que elevam ainda mais a figura do líder moderno, com roupas diferentes, contradizendo o exemplo de Jesus. E ainda existem os bastidores, onde o oculto dificilmente é revelado. Lá, no alto, separados do povo, se sentindo por cima, muitos pastores e padres não gostam de ser criticados e ameaçam dizendo que ninguém deve tocar o ungido do Senhor. Mas não é isso que Paulo ensinou. Ele declarou o seguinte:  “Não aceite nenhuma acusação contra qualquer presbítero, a não ser que ela seja feita por duas testemunhas, pelo menos. Repreenda publicamente os presbíteros que cometem pecados, para que os outros fiquem com medo.” (1 Timóteo 5.19-20, NTLH.) [22]. Como podemos ver, ser houver duas ou mais testemunhas acusando o pastor de algum mal, ele deve ser repreendido publicamente. Se ele se desviar do evangelho, é claro, devemos evitá-los. Falando dos falsos, Jesus disse: “Porém não sigam essa gente.” (Lucas 21.8, NTLH.) “Não vades, portanto, após eles.” ( Lucas 21.8, RC.) [23].

 

Você é livre para seguir o líder religioso que quiser. Não podemos jamais exigir que deixe de acompanhar essa ou aquela pessoa. Você é livre para seguir o padre, o pastor, o ministro, o missionário, o ancião, o bispo... Mas você precisava saber dessas verdades. Você tinha o direito de saber como foram os primeiros pastores criados por Jesus. Então, agora, você também está livre para decidir não seguir certas pessoas. E não se esqueça que Jesus é que é o verdadeiro cabeça da igreja, que é o seu corpo. O resto é corpo, ou melhor: parte do corpo. Se quiser pode deixar de seguir esses líderes que não se enquadram no evangelho original de Jesus. Mas, por favor, fique atento: há idosos, cheios do Espírito Santo, pronto para dar conselhos sábios, sem nenhuma intenção de dominá-lo, sem qualquer interesse financeiro, sem paramentos, sem gravata, sem púlpito, mas apenas querendo guiá-lo no bom caminho. Esses são os verdadeiros pastores de ovelhas. O resto... Deus vai julgar. Muitos certamente são mercenários.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br