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Conselho de anciões (presbíteros, bispos, pastores) Parte III

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Na igreja apresentada em Atos dos Apóstolos, não havia uma classe chamada de clero e outra de leigos. Todos eram iguais. Apenas existiam dons diferentes. Essas duas classes foram mostradas no Antigo Testamento, quando havia os sacerdotes, os levitas e o povo. No Novo Testamento, como já vimos, Jesus é o sumo sacerdote para sempre e todos nós, cada um com o seu dom, somos sacerdotes com ele. (I Pedro 2.5 e 9; Apocalipse 1.6 e 5.10.) [1]. Jesus não criou nenhuma classe diferente como fez Moisés e várias outras religiões do mundo. Mas com o tempo, houve a judaização e a romanização da igreja, e uma classe clerical se firmou acima de todos. Dessa forma, anciãos, presbíteros ou bispos deixaram de ser um conselho, para se transformarem numa hierarquia de cabeças da igreja. Veja alguns exemplos que provam que a classe clerical surgiu e foi ganhando destaque na história da igreja.

Antigo Testamento

2 classes: clérigos e leigos

        Sumo sacerdote

        Sacerdotes

        Levitas

        Povo

Descrição: Estratificação social do AT. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Novo Testamento

uma classe sacerdotal

        Jesus como sumo sacerdote

        Todos os seus seguidores como sacerdotes

Descrição: A igreja sem estratificação. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

A igreja judaizada

2 classes: clérigos e leigos

        Bispo como sumo sacerdote

        Presbíteros como sacerdotes

        Diáconos como levitas

        Povo

Descrição: A estratificação da igreja. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·        No ano 100, Clemente de Roma, escrevendo aos coríntios, criou a idéia da existência de leigos. Falando sobre a ordem na obra de Deus, ele concluiu dizendo: “De facto, foram confiadas ao sumo sacerdote as funções litúrgicas que lhe são próprias, aos sacerdotes foi pré-ordenado o lugar que lhes é próprio, aos levitas competem serviços próprios. O leigo está vinculado aos ordenamentos leigos" (Carta aos Coríntios 40, verso 5.) [2], [3], [4], [5].

 

·        Entre o final do século I e o início do século II, Inácio de Antioquia, o terceiro patriarca da cidade de Antioquia, resolveu defender a idéia de um bispo único acima dos presbíteros e diáconos. Numa carta que ele escreveu à igreja de Filadélfia, disse: “Tende cuidado, portanto, em observar a eucaristia… há um altar, como há um só bispo, juntamente com os presbíteros e diáconos.” (Carta de Santo Inácio de Antioquia aos Filadelfos, capítulo III. Grifo meu.) [6], [7]. Ele disse também que “o bispo preside no lugar de Deus.” (Epístola aos Magnésios 6.1) [8]. Escrevendo aos Esmirniotas, ele deu bastante ênfase ao ministério episcopal: "Sigam todos ao bispo, como Jesus Cristo ao Pai; sigam ao presbitério como aos apóstolos. Acatem os diáconos, como à lei de Deus. Ninguém faça sem o bispo coisa alguma que diga respeito à Igreja. Por legítima seja tida tão-somente a Eucaristia, feita sob a presidência do bispo ou por delegado seu. Onde quer que se apresente o bispo, ali também esteja a comunidade, assim como a presença de Cristo Jesus também nos assegura a presença da Igreja católica. Sem o bispo, não é permitido nem batizar nem celebrar o ágape. Tudo, porém, o que ele aprovar será também agradável a Deus, para que tudo quanto se fizer seja seguro e legítimo." (Epístola aos Esmirniotas, capítulo VIII.) [9], [10]. Nessa ocasião, segundo avaliações de George H. Williams, professor de História da Igreja da Universidade de Harvard, o pastor-chefe era visto “como um ancião de um sinédrio cristão, como apóstolo, como um profeta, como um sumo sacerdote, ou como uma epifania de Deus ou de Cristo ao povo cristão.” [11].

 

·        No século II, o bispo já era visto como um presidente. Justino escreveu: “Quando o leitor termina, o presidente, em um discurso, convida-nos para a imitação dessas coisas nobres.” (Justino - I Apologia Cap. 67.) [12].

 

·        No início do século III, o bispo Hipólito de Roma tratou o bispo como um sacerdote. Na oração de consagração dos bispos ele disse: “Pai, que conheces os corações, permita a este teu servo que escolheste para o episcopado, apascentar o teu rebanho santo, desempenhando o primado do sacerdócio de forma irrepreensível perante ti, servindo-te noite e dia. Concede-lhe tornar propícia a tua imagem, incessantemente, oferecendo os sacrifícios da tua Santa Igreja e, com um espírito de superior sacerdócio.” (Tradição Apostólica.) Hipólito deu ao bispo uma posição de destaque. Ele também falou de clero e leigos. [13].

 

·        No início do século IV, o imperador romano Constantino, após promulgar o Edito de Milão, apoiou o cristianismo, e a classe clerical ganhou mais poder. [14]. Os clérigos (bispos, presbíteros) passaram a vestir roupas diferentes do povo e iguais aos oficias romanos. [15], [16]. Também começaram a receber honras, salários, isenção de impostos e de serviços públicos obrigatórios. [17]. Consolidou-se a idéia de um líder único na igreja local, debaixo de uma hierarquia semelhante à hierarquia política e militar romana. [18]. Igrejas foram construídas com púlpitos elevados e cadeiras especiais para eles. [19]. Atraídos pela ostentação romana, aqueles líderes passaram por cima daquilo que Jesus havia ensinado. Não resistiram à tentação de abandonarem os ensinos originais de Jesus em troca de todos aqueles “manjares” oferecidos pelo rei de Roma. O título de padre, do latim “patre”, que já vinha sendo usado antes por alguns, lembrando os chefes das famílias patrícias, a principal classe social de Roma, se estendeu a todos os membros do clero, acima dos diáconos. [20], [21]. Isso acabou contrariando Mateus 23.9, onde Jesus disse, no sentido religioso: “E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus.” (RC.) [22]. O clero também foi definitivamente considerado como uma classe de sacerdotes. Surgiram também os títulos de arcebispo, cardeal e papa. [23], [24], [25], [26], [27].  Além das roupas diferentes, os cabelos cortados curtos começaram a ser o sinal distintivo de todos os clérigos. Essa distinção se acentuou mais com a implantação da tonsura. [28].

 

·        Ainda no século IV, foi declarado o seguinte: “O Bispo, eis o ministro da Palavra, o guardião do conhecimento, o mediador entre Deus e você em várias partes de sua adoração divina… Ele é seu soberano e governante… Ele está em segundo lugar depois de Deus, seu deus terreal, que tem o direito de ser honrado por tua pessoa.” (Constituições Apostólicas, Livro II, XXVI.) [29].  Nesse mesmo documento, falando da preparação para a celebração da liturgia, diz para um presbítero ficar à direita do bispo e o outro, à esquerda, como discípulos diante de seu Mestre. [30]. E ainda: “Não deixem os presbíteros e os diáconos fazer nada sem o consentimento do bispo.” [31].

 

·        Em 325, no cânon XVIII do Concílio de Nicéia, ficou decidido: “Os diáconos devem permanecer dentro de suas atribuições. Não devem administrar a Eucaristia a presbíteros, nem tomá-la antes deles, nem sentar-se entre os presbíteros. Pois que tudo isso é contrário ao cânon e à correta ordem.” [32]

 

·        A partir dessa época, três bispos deram ênfase ao episcopado. No Ocidente: Ambrósio de Milão, bispo e Doutor da Igreja. No Oriente: João Crisóstomo, 36º patriarca de Constantinopla, eloquente pregador e Doutor da Igreja. E no norte da África, também no Ocidente: Agostinho de Hipona, bispo, teólogo, filósofo, apologista e também Doutor da Igreja. [33].

 

·        Entre os séculos IX e XII, na época do feudalismo, o clero, que já era uma classe privilegiada, passou a ocupar uma posição ainda mais privilegiada na sociedade européia. Acima do povo sofrido, a classe do clero (padres, bispos e o papa), juntamente com os nobres (duques, condes, viscondes, barões e outros nobres), viviam todos isentos de impostos. [34], [35].

 

·        No século XVI, com a Reforma, Calvino e Lutero defenderam a restauração do sacerdócio de todos os crentes. [36]. Eles ensinaram corretamente que cada cristão tem acesso direto a Deus sem a necessidade de um mediador humano. Mas, na prática, os líderes continuaram atuando como sacerdotes das igrejas, acima do povo. Na verdade, a classe clerical continuou existindo nas milhares de igrejas protestantes e evangélicas que surgiram a partir de então. Apesar desse termo ter sido evitado por muitos, continuaram com a idéia de um pastor único nas igrejas locais. Calvino e Lutero não quiseram continuar usando o título católico de sacerdote e adotaram o título de pastor. Também surgiram os títulos de pregador e ministro. Fizeram uma mudança na roupagem e nos títulos, mas quase nada mudou em termos de liderança. Consideraram todos como sacerdotes, mas mantiveram uma classe de sacerdotes especiais, embora com outros títulos. [37].

 

·        No mesmo século da Reforma, os anabatistas levaram a idéia de sacerdócio universal a sério. Eles sempre acreditaram que falar em uma reunião cristã não era privilégio do clero, mas de todos que fossem guiados por Deus. Mas muitos foram calados com as espadas reluzentes de católicos e protestantes. [38], [39].

 

·        No século XVIII, na época da Revolução Francesa, as classes dominantes eram a nobreza, a burguesia e, é claro, o clero. A posição privilegiada do clero fez com que muitos franceses, enraivecidos, levassem diversos lideres da Igreja à morte trágica. [40].

 

·        A partir do século XVIII, o termo pastor ganhou destaque entre os evangélicos e alguns protestantes, mas continuaram como líder primaz e único sobre a congregação. [41].

 

Ao longo de todo esse processo, pessoas de qualquer idade passaram a ser reconhecida como líderes da igreja. Então não podiam mais chamá-las de anciões ou presbíteros. Essas palavras indicavam pessoas de idade avançada. Então, como vimos, tornou-se costume usar os termos padre, ministro e pastor, se desviando totalmente do contexto do Novo Testamento.  A Reforma protestante, como foi mostrado, não conseguiu reformar a igreja de verdade. Os protestantes e evangélicos criticam os católicos que seguem a tradição. Mas é pura hipocrisia, pois eles também conservam parte da mesma tradição. Não efetuaram uma reforma completa. Não conseguiram descer do pedestal romano.

 

A deturpação do conselho de anciãos.

 

 

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Descrição: Ancião. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Descrição: Padre. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Descrição: Pastor. Data: março/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Infelizmente, nem todos foram chamados para essa função. Muitos estiveram e estão na liderança apenas por causa das vantagens. E muitos dos que foram chamados estão fora dos princípios pregados por Jesus. Apesar de ostentarem o nome de cristãos, conduzem o povo na contramão da verdadeira mensagem original de Jesus. Por isso, os títulos de lideranças cristãs têm enojado muitas pessoas. Hoje, muitos são líderes, mas na verdade são líderes de organizações religiosas. O comportamento de muitos prova que não são supervisores da igreja livre. Muitos são excelentes administradores de igrejas institucionalizadas. Mas estão longe de serem verdadeiros presbíteros e mais parecem donos de igrejas. Aliás, é por isso que muitos dizem: “sou da igreja do pastor fulano de tal.”

 

Muitos são excelentes oradores com uma retórica que causaria inveja em qualquer sofista grego. Todavia, são péssimos orientadores em relação aos verdadeiros ensinos de Jesus. Querem ser cabeças e não servos. Adoram mergulhar no baú do Antigo Testamento para buscarem, excluindo as exortações, a preciosa promessa dada aos hebreus e que apregoam com muita ênfase: “E o SENHOR te porá por cabeça e não por cauda; e só estarás em cima e não debaixo.” (Deuteronômio 28:13, RC.) [42]. Por isso a igreja cheia de cabeças humanas está encalhada. As pessoas não sabem de qual cabeça deve receber comandos.

 

A igreja deixou de influenciar o mundo com as mensagens de Jesus.  As influências negativas das lideranças mundanas infiltraram nela. O luxo da nobreza, o autoritarismo e o absolutismo das monarquias européias, o totalitarismo das ditaduras, a intransigência e a corrupção dos governos foram coisas que a igreja aprendeu muito bem desde os tempos de Constantino. Muitos se encheram de orgulho, se tornaram autoritários, gananciosos, opulentos, dominadores, achando que foram colocados para ficar por cima, numa outra classe, como se fossem super-homens ungidos, melhores, com dons especiais...

 

Todo esse corrompimento do verdadeiro evangelho acabou virando uma barreira, impedindo o mundo de conhecer o evangelho puro e o verdadeiro Cristo. Todos foram obrigados a aceitar tudo que eles mandaram. Não adiantava tentar voltar ao evangelho simples e original. Quem fizesse isso seria perseguido, excomungado, torturado e até executado na fogueira. Ainda hoje, quem tenta resgatar o evangelho original, como eu, é taxado de herege, mensageiro de Satanás, obra do Diabo...

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[17] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 74.

[18] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, pp. 73 e 74.

[19] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 53.

[37] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, pp. 79 a 83.

[38] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 79.

[41] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 81.