Superstições

 Livres dos Fardos Religiosos

 

Dona Flor saiu de casa com muito medo. Era uma sexta-feira treze. E “piorou” a situação, quando passou um gato preto correndo pela rua, à sua frente. Ela voltou trêmula correndo para dentro de casa e esbarrou num espelho que caiu em pedaços. Apavorada exclamou:

 

 

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Descrição: Gato preto. Data: 16 de novembro de 2012. Autor: Markub. Fonte. Licença CC BY-SA.

–– Hoje é sexta-feira treze, dia de azar. Por isso, um gato preto passou por mim para me trazer má sorte. Para piorar, quebro um espelho e vou ter sete anos de infortúnio. Que dia sinistro!

 

Como podemos ver, dona Flor é uma pessoa supersticiosa. Isso acontece com muita gente. Se as pessoas não estivessem tão carregadas de medo, poderiam ver que muitas coisas que acreditam não passam de crenças sem fundamento. Mas o temor, muitas vezes, fala mais alto, e as pessoas ficam escravizadas pelas suas crenças absurdas.

 

Superstição é uma crença, ou melhor: uma crendice, baseada no medo ou na ignorância de que certos atos, palavras, objetos ou números trazem benefícios ou malefícios. É um sentimento mágico-religioso exagerado ou falso e que muitas vezes leva as pessoas à prática de coisas indevidas e absurdas. [1]. Superstição e crendice, como você pôde observar, são a mesma coisa. Todas as crenças absurdas e sem sentido como as que vamos ver aqui são crendices. Mas eu resolvi criar dois textos separados. Aqui eu estou mostrando as crenças mais voltadas para o sentimento religioso popular.

 

A pessoa supersticiosa, com medo de um malefício ou na esperança de um benefício, pratica certos atos. Esse tipo de crença começa com uma pessoa. Por exemplo: um dia, uma pessoa, vestida com uma roupa de cor verde, ganha um prêmio. Ela começa a acreditar que aquela cor dá sorte. Entusiasmada, resolve passar para os outros a sua suposta descoberta. Assim, aquela crendice pode se tornar popular.

 

As pessoas ficam temerosas e escravizadas pelas superstições. Elas sempre fizeram parte das tradições culturais e religiosas de milhares de pessoas, em todos os tempos e lugares.

 

·       Os antigos egípcios enterravam os mortos com amuletos e conjuros, pois acreditavam que eles enfrentariam diversos perigos após a morte. [2].

·       Os gregos e romanos usavam a arruda para dar sorte nos negócios e para ficarem imunizados contra doenças contagiosas. [3].

·       A crença no mau-olhado, no poder de amuletos, entre outras coisas são superstições muito comuns.

·       Muitos acreditam que dá azar abrir guarda-chuva dentro de casa, passar debaixo de escada e tantas coisas mais.

·       Muitos usam amuletos e talismãs para evitarem problemas e obterem benefícios como, por exemplo: figas, ferradura, pé de coelho, galhos de arruda, duendes, pedras, cristais, pirâmides, etc.

·       Várias pessoas acreditam em mau-olhado (poder maléfico atribuído ao olhar de certas pessoas) que supostamente pode provocar problemas nos negócios, danos nos bens materiais, doenças e até a morte da pessoa atingida.

·       Há quem acredita que, na noite de São João, se uma pessoa solteira colocar duas agulhas numa bacia com água, e elas se juntarem, então aquela pessoa se casará naquele ano.

 

Olhando assim, superficialmente, não vemos grandes perigos. Tudo parece apenas folclores divertidos. Mas não é bem assim. Muitas pessoas levam muitas coisas a sério. Esse tipo de crença pode ser um bichinho hoje. Mas se ele for alimentado, pouco a pouco, vai se transformando num monstro perigoso. Vou explicar melhor.

 

No passado, não sei quem, onde e quando, alguém achou que devia ofertar alguma coisa para algum deus ou espírito imaginário para alcançar bênçãos ou para evitar problemas. Então ofertou algum cereal, alguma fruta, um vinho... Depois, não se sabe o porquê, as pessoas certamente pensaram que a oferta precisaria ser melhor. Deram, quem sabe, algum bichinho. A deusa Bastet, com sua cara de felino, certamente ganhou alguns gatinhos egípcios... mortos, claro. E o monstro da superstição foi crescendo e dominando as pessoas. Passaram a ofertar cordeiros, cabritos e bois. Mas parecia que era preciso ofertar alguma coisa melhor. Então ofertaram seres humanos. Pensaram que precisava de algo ainda melhor. Então as pessoas ofertaram até mesmo seus próprios filhos. Por isso, Moisés ordenou aos hebreus: “Não ofereçam os seus filhos em sacrifício, queimando-os no altar.” (Deuteronômio 18.10, NTLH.) [4].

 

Ah, você está pensando que são contos da carochinha ou historinhas “pra boi dormir”?  Não disso! Os bois morreram mesmo. E humanos também. Tudo superticiosamente. Observe como a superstição do famoso rei Davi do povo hebreu se transformou num monstro, ou melhor: o transformou num monstro. (A historinha seguinte está na Bíblia, mas é monstruosa demais para as crianças. Cuidado!)

 

 

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Descrição: A bondade de Rizpa. Data: século XIX. Autor: Gustave Doré. Fonte e licença DP.

 “E houve, em dias de Davi, uma fome de três anos, de ano em ano; e Davi consultou ao SENHOR, e o SENHOR lhe disse: É por causa de Saul e da sua casa sanguinária, porque matou os gibeonitas.’” (II Samuel 21.1-14, RC.) [5].

Esse povo era um pequeno grupo de pessoas que os israelitas tinham prometido proteger. (Josué 9.) Mas Saul havia tentado acabar com eles.
[6].

Davi chamou os gibeonitas e perguntou o que ele podia fazer por eles. Eles pediram sete pessoas descendentes de Saul para serem enforcadas diante de Deus. Davi então entregou sete homens inocentes da família de Saul. Eles foram enforcados num monte, em Gibeá. (Será que eles passaram debaixo de alguma escada?)

 

Rispa, a mãe de dois deles, ficou ali perto, sobre a rocha, em cima de um cilício, um pano grosseiro, feito com pêlo de cabra, usado em ocasiões de profunda tristeza. Ela não deixou nenhum animal devorar os corpos. Ficou ali, vários dias, mergulhada numa profunda tristeza, perto dos seus filhos mortos, apodrecendo e cheirando mal, sofrendo os males causados pela mente supersticiosa do famoso rei Davi, que tentara consertar um mal com outro mal, extremamente nojento, ainda por cima de tudo, usando o nome de Deus. Ele acreditou que a fome fora causada pelo mal cometido por Saul. Sacrificou sete pessoas inocentes e acreditou que o problema teria sido resolvido. Qual será o método que ele usou para falar com Deus?

 

Eu falei que o bicho ia ser brabo! E muitos ainda tem medo de gatinhos pretos. (Quanto preconceito!) É melhor tomar cuidado, pois os monstros dessa natureza já mataram muita gente na estaca, na espada, na fogueira... O terreno religioso nem sempre é seguro.

 

Muitos não gostam de chamar esse acontecimento macabro de crendice ou superstição, afinal está na Bíblia, praticado em nome de Deus. É chato dizer, mas que tipo de crença é essa que consumiu a vida daqueles sete homens inocentes de forma tão cruel? Eu chamaria de que? Crime hediondo? Rapto de homens, seguido de mortes trágicas? Crime santo? Assassinatos divinamente corretos? Seja qual for sua resposta, a crença do rei foi muito estranha mesmo.

 

Indiferentes como um gatinho que mal abre os olhos (gaffild gospel), muitos pesam “Ah, mas foi Davi, um homem de Deus, que fez isso.” Mas se fossem seus filhos, marido, irmãos, namorado, amigos morrendo numa estaca, ai sim, abriria bem os olhos e ficaria furioso como um felino selvagem.

 

Jesus não ensinou nenhuma superstição para as pessoas. Paulo, discípulo de Jesus, escreveu: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará.” (Gálatas 6:7.) [7]. Provérbios diz que a maldição sem causa não virá. (Provérbios 26.2.) [8]. “O que semeia a injustiça segará males” (Provérbios 22:8.) [9]. Pode até acontecer algum mal. Mas não precisamos ficar morrendo de medo. Afinal, como disse Jesus: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo.” (Mateus 10.28, RA.) [10].

 

Nossos problemas não são causados por coisas supersticiosas: são causados pelos nossos erros e pelos erros dos outros. Colheremos o que semearmos.  Se plantarmos o mal, colheremos o mal. Se plantarmos o bem, colheremos o bem. Se alguma coisa vai mal é porque erramos. Ninguém sofre um acidente porque é sexta-feira treze. Sofre porque alguma coisa errada foi feita. Mesmo com um amuleto pendurado no retrovisor, a pessoa imprudente pode provocar um desastre em qualquer momento. Nosso planeta está carregado de problemas como: doenças, fome, misérias, poluição... E não é por causa de nenhum gato preto ou coisa parecida. É por causa das faltas que cometemos. E a solução é deixarmos de lado os nossos erros. Não adianta corrermos atrás de crenças absurdas. Precisamos consertar os nossos erros e confiar em Deus para que os nossos problemas sejam solucionados. Através da nossa conversão e da nossa fé em Deus podemos vencer todas as dificuldades e perigos.

 

Muitas igrejas por ai estão distribuindo, para os fiéis, verdadeiros talismãs que dizem ter poderes divinos como: orações escritas pra colar nas portas, fitinhas, flores, pulseiras, sal, óleo, água, santinhos, medalhas, sal do mar morto, água do mar da Galiléia, etc. A lista é enorme. Com o desejo de atrair adeptos para suas igrejas, ao invés de orientar o povo para que deixem de plantar o mal, preferem explorar suas crendices, e ainda colocam outras na cabeça das pessoas. Mantém o povo na ignorância, pois assim conseguirão segurá-los nas diversas campanhas carregadas de misticismos e superstições, recheadas de ofertas.

 

Vou dizer uma verdade: mulas sem cabeça, sacis, lobisomens não existem. Perigosos são os “lobisvelhas”. Você não os conhecem? São os lobos com pele de ovelhas. E as pessoas ainda têm medo de gatinhos.

 

Corre “cat”! Corre! O perigo é do lado de cá! 

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br