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Religião estatal

Religião estatal

 

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Houve um tempo em que a igreja era perseguida, mas era livre. Um dia, ela foi apoiada pelo imperador romano, ganhou liberdade, entrou nos palácios, recebeu um abraço pomposo, ganhou presentes reais, virando a religião estatal do maior império dos primeiros séculos. E, lamentavelmente, se corrompeu com os “manjares do rei”. Aprendeu a bater na mesa e dizer: “Aqui quem manda sou eu.”

 

 

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Descrição: Autoritarismo. Data: fevereiro/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Religião estatal é a religião que um Estado ou nação adota para ser seguida legalmente pelos seus habitantes. É também chamada de religião oficial ou, no caso do cristianismo, igreja estabelecida ou igreja estatal. As outras religiões ou igrejas, consideradas ilegais, muitas vezes são perseguidas. Não é exatamente uma teocracia, pois os demais assuntos do Estado são regidos por leis seculares comuns. Todavia, na constituição, a religião ou igreja é endossada como religião oficial para todos os cidadãos. [1].

 

Jesus falou para os seus discípulos: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” (Mateus 28:19, RA.) [2]. Ele não disse para fazer do seu evangelho a religião oficial de todas as nações. Ele mandou apenas anunciar, divulgar e jamais impor o evangelho em todas elas. E foi assim nos três primeiros séculos: pregaram a mensagem cristã sem nenhuma ligação com o Estado.

 

No início do século IV, em 313, o imperador romano Constantino apoiou o cristianismo, assinando o Edito de Milão. [3], [4]. No fim desse século, em 380, através do Edito de Tessalônica, o imperador Teodósio I fez do cristianismo a religião oficial do império, se tornando uma nação, de certa forma, teocrática. [5]. Teodósio continuou emitindo vários outros decretos a favor do catolicismo em detrimento das demais crenças. [6]. A partir daí, o cristianismo começou a ser imposto. As demais religiões foram perseguidas, e seus seguidores foram se refugiar na zona rural e receberam o nome de pagão (habitante do campo). [7], [8]. Pagão se tornou a palavra pejorativa para indicar quem não fazia parte da Igreja Católica.

 

 

Trecho do Edito de Tessalônica.

(Observe a intolerância religiosa)

 

“Ordenamos que, de acordo com esta lei, todas as gentes abracem o nome de cristãos e católicos, declarando que os dementes e insensatos que sustentam a heresia e cujas reuniões não recebem o nome de igrejas, têm de ser castigados, primeiro pela justiça divina e, depois, pela pena que leva inerente o não cumprimento de nosso mandato, mandato que provém da vontade de Deus.”

 

CODEX THEODOSIANUS, XVI, 1-2. Edição Th. Momsen. Berlín, 1905. [9].

No século V, o Império Romano do Ocidente se acabou. [10]. No lugar, vários impérios menores surgiram comandados pelos povos bárbaros. [11]. Mas a intolerância não acabou. E o papa interveio em todos eles, procurando manter a posição do cristianismo romano como religião legalmente aceita. [12]. Nessa época, em plena Idade Média, o judaísmo estava presente na Europa. [13]. No século VIII, os mulçumanos conquistaram a península Ibérica. [14]. Na França, no século XI, surgiu a religião dos cátaros ou albigenses, e no século XII, os valdenses. [15], [16]. Na Inglaterra, John Wycliffe iniciou um novo movimento religioso, conhecido como wycliffismo. [17]. Esse foi o precursor da Reforma. No século XV, na Boêmia, região histórica da Europa central, Jan Hus continuou com as idéias de John Wycliffe. [18]. Esse movimento, conhecido como utraquismo, também foi precursor da reforma.

 

 

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Desc.: Papa Inocêncio III. Data: 1509. Autor: Rafael (1483-1520). Fonte e licença DP.

 

Para impedir o desenvolvimento de todas essas religiões e manter a hegemonia do cristianismo romano na Europa, a Igreja praticou ou apoiou os piores horrores. Massacres, pogrom, guerras religiosas, torturas, prisões perpétuas, confisco de bens, pena de morte na fogueira, tudo foi usado para manter a sua posição como religião oficial. [19], [20].

 

Por exemplo: no início do século XIII, o papa Inocêncio III promoveu uma cruzada contra os albigenses na França. A França era território do catolicismo. O chefão da igreja não aceitou religiões diferentes em seu território. Foi um terrível massacre. Muitos foram lançados vivos nas fogueiras da Inquisição, condenados pelo “crime” de abandono da religião oficial, o catolicismo romano. [21], [22].

 

Dessa forma, muitos reis apoiaram o cristianismo romano. Na região da Espanha, o rei Recaredo I dos visigodos adotou o catolicismo como religião do seu reino. [23]. O reino dos francos, o Sacro Império Romano-Germânico, os reinos espanhóis de Castela e Aragão, o reino de Portugal, todos eram ligados ao catolicismo romano. [24], [25], [26], [27], [28].

 

No século XVI, com a Reforma, novas religiões cristãs surgiram: o luteranismo na Alemanha, a anglicanismo na Inglaterra, o calvinismo e o anabatismo na Suíça e o presbiterianismo na Escócia. Esses movimentos, muito mais fortes que os da Idade Média, conseguiram sobreviver ante as investidas católicas. No norte e centro da Europa, alguns desses movimentos se tornaram religiões oficiais de alguns reinos. [29], [30], [31], [32], [33].

 

·       O grande Sacro Império Romano-Germânico ocupava a região central da Europa e era subdividido em pequenas unidades como: pequenos reinos, principados, ducados, condados e cidades livres imperiais. Depois da Reforma, muitos adotaram a Igreja Luterana como religião oficial, enquanto outras permaneceram com a Igreja Católica, sendo esse um dos estopins da Guerra dos Trinta Anos. [34], [35].

·       Na Suécia, o rei Gustavo I Vasa fez do luteranismo a religião do seu reino. [36].

·       Na Boêmia, o utraquismo foi oficializado. [37].

·       Na Escócia, com o apoio do reformador John Knox, o presbiterianismo se tornou oficial. [38]

·       Na Inglaterra, foi criada a Igreja Anglicana, após a ruptura do rei Henrique VIII com a Igreja Católica, tornando a igreja estatal. [39].

·       Ainda no século XVI, a rainha Maria I da Inglaterra (Maria Tudor), resolveu restaurar o catolicismo em seu reino. Casou-se com o seu sobrinho, o rei católico Felipe II da Espanha e perseguiu os protestantes. Mas em 1558, a rainha Elizabeth I da Inglaterra, depois de ocupar o lugar de Maria Tudor, resolveu oficializar de novo o anglicanismo. [40].

 

Em outras partes do mundo, o cristianismo e outras religiões também foram oficializados.

 

·       No Brasil imperial, o catolicismo era a religião legalmente aceita. [41].

·       Em muitos países da África e da Ásia, o islamismo foi adotado. [42].

·       No Japão, no século XIX, o xintoísmo tornou-se oficial. [43].

·       Na antiga Pérsia, o zoroastrismo foi adotado oficialmente. [44].

·       Na China imperial, durante a dinastia Han, o confucionismo se tornou oficial, permanecendo mais de dois mil anos até a chegada do comunismo no século XX. [45], [46].

·       Na Coréia, a dinastia Yi também adotou o confucionismo. [47].

 

Felizmente a humanidade amadureceu, e muitos países deixaram de ter uma religião definida. No Brasil, no final do século XIX, após a proclamação da República, o catolicismo perdeu a sua posição.[48]. Na Itália, berço do catolicismo, em 1984, a Igreja Católica perdeu a sua primazia. [49]. Na Espanha, com a Constituição de 1978, o catolicismo também deixou de ser a religião proposta pelos governos. [50]. Várias outras nações seguiram esse sensato caminho. E a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela Assembléia Geral da ONU em 10 de dezembro de 1948, reforçou o direito à liberdade religiosa. [51].

 

Mas alguns países ainda insistem em manter uma religião oficial. Veja a lista abaixo. (Espero que esteja desatualizada.)

 

Islã: Afeganistão, Arábia Saudita, Argélia, Bahrein, Bangladesh, Brunei, Ilhas Comores, Egito, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Irã, Iraque, Jordânia, Kuwait, Líbia, Malásia, Maldivas, Marrocos, Mauritânia, Omã, Paquistão, Qatar, Sudão e Tunísia.

 

Catolicismo: Argentina, Bolívia, Costa Rica, Malta, Peru e Vaticano. Em alguns países como: El Salvador, Andorra, Haiti e Paraguai, mesmo não sendo oficial, o catolicismo goza de alguns direitos especiais

 

Protestantismo: Dinamarca, Islândia e Noruega.

 

Anglicanismo: Reino Unido

 

Igreja Ortodoxa: Grécia.

 

Budismo: Butão, Camboja e Tailândia. [52], [53]

 

 

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Descrição: Nações com religiões estatais. Data: ? Autor: Ekrub-ntyh. Fonte. Licença CC BY.

 

 

Jesus não mandou ninguém semear preconceitos contra qualquer religião. Ele apenas mandou anunciar o seu evangelho de vida eterna, fé em Deus, arrependimento, perdão, solidariedade, amor, respeito, justiça... Não mandou ninguém sair por ai pregando e impondo doutrinas, dogmas, rituais e sistemas religiosos. Nada deve ser feito à força, mas por meio do Espírito de Deus. Sendo assim, não há espaço para um cristianismo oficial.

 

Não se engane. O ser humano é perigoso. Ele é egoísta, orgulhoso e preconceituoso. Com o sistema religioso chamados de igreja não é diferente. Cada pessoa acha que sua religião ou igreja é a melhor, a mais santa, a perfeita, considerando as outras igrejas e religiões como heresias, seitas, obras do diabo, servos de Satanás e coisas parecidas. Dessa forma, na medida em que líderes das igrejas vão ocupando o Congresso Nacional e outras esferas do governo, vou se enchendo de orgulho e intolerância, e corremos o risco do cristianismo ou até de uma igreja forte virar religião estatal. Como podemos ver, isso não é coisa do passado. Esse mal, desrespeitando os direitos humanos, ainda existe em alguns países, inclusive em nações desenvolvidas.

 

Proteste contra isso. Nenhum sistema eclesiástico tem esse direito. Não queremos ver mais igrejas de braços dados com a realeza, mergulhados nos palácios, ditando normas. Precisamos proclamar liberdade a todos. Não podemos aceitar privilégios do governo. Todos têm direito iguais. O catolicismo foi apoiado por Constantino, e oficializado por Teodósio. É assim que a coisa funciona. Um dia vem o apoio, os privilégios. No outro, a oficialização, a partir daí, o desrespeito aos direito humanos e a corrupção. Afastemos de nós essa podridão. O evangelho de Cristo é para todos, mas é apenas por meio do Espírito de Deus. Nenhum governo pode impor uma religião. A liberdade religiosa precisa ser respeitada. Sendo assim, nenhuma nação deve exigir que os seus cidadãos sejam obrigados a seguir uma determinada religião. O Estado precisa ser laico. Isso está de acordo com os ensinos de Jesus. Sua mensagem deve ser conhecida por todos. Mas nenhuma organização religiosa poderá se impor em seu nome em nenhuma região da terra. Que esse mal não se repita jamais.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br