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Crendices

Livres dos Fardos Religiosos

 

No livro bíblico dos Juízes, encontramos o caso de Jefté. Esse homem fez um voto, dizendo que se Deus o ajudasse a vencer os amonitas, ele queimaria, em sacrifício, a primeira criatura que saísse da sua casa para lhe encontrar quando estivesse retornando da guerra.

 

 

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Descrição: Retorno de Jefté. Data: 1700-1725. Autor: Giovanni Antonio Pellegrini (1675-1741). Fonte. Projeto de Yorck:  10,000 Meisterwerke der Malerei DVD-ROM, 2002. ISBN 3936122202 . Distribuído por Directmedia Publishing GmbH. Licença domínio público.

Jefté foi guerrear contra os amonitas e venceu. Quando voltou para sua casa, a sua filha única, dançando e tocando pandeiro, saiu ao seu encontro. Ficou desesperado, mas depois de dois meses, fez o que havia prometido a Deus. [1].

 

Podemos observar a crendice desse homem, um dos juízes de Israel, ao acreditar que Deus lhe daria a vitória em uma guerra em troca de um sacrifício humano.  Na verdade, ele tinha duas possibilidades: perder ou vencer. Ele venceu, mas não significa que foi por causa do voto tolo que fez. Será que Deus estava interessado no sacrifício humano praticado contra aquela virgem garota?

 

Crendice é a crença absurda (contrária à razão) e ridícula como podemos ver na atitude de Jefté. [2]. Há crenças verdadeiras, coerentes, dignas de serem aceitas. Entretanto, muitas não passam de absurdos.

 

Delírios, impressões, medos, êxtases, alucinações, sonhos, fantasias e ilusões fazem as pessoas criarem relatos de coisas estranhas. Em cima de tudo isso, surgem mitos, boatos e hipóteses. Assim nasceram e nascem as crendices de todas as religiões. Do nada, surgem um monte de coisas que vão preencher a vida religiosa das pessoas. Essa é a porta de muitos enganos. É assim que nascem muitas heresias e muitas coisas que vão fazer a humanidade alimentar falsas esperanças ou viver debaixo de medos terríveis. Precipitadamente, sem nenhuma ponderação, as pessoas transformam suas experiências estranhas em objetos de sua fé.

 

 

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Descrição: Origem das crenças. Data: fevereiro/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Geradores de crendices:

A.    delírios;

B.    impressões;

C.    medos;

D.    êxtases;

E.    alucinações;

F.    sonhos;

G.   fantasias;

H.    ilusões.

Tudo isso gera:

1. relatos;

2. mitos;

3. boatos;

4. hipóteses.

Tudo isso gera:

5. diversos tipos de crendices.

As crendices fazem parte das tradições culturais e religiosas. Milhares de pessoas, em todos os tempos e lugares, cultivaram crenças irracionais. As diversas religiões do mundo tiveram e ainda têm dessas coisas.

 

·       Os antigos egípcios acreditavam que a vida, depois da morte, era semelhante à terrena, por isso, junto com os defuntos, eram colocadas coisas de uso diário, incluindo alimentos. [3].

 

·       Os gregos acreditavam que Zeus, a divindade suprema deles, assumia formas diferentes como cisne, touro, nuvem ou chuva em uniões com mulheres mortais. Eles acreditavam que dessas uniões nasceram os heróis como Heracles e os Dióscuros, por exemplo. [4].

 

·       Os sumérios acreditavam que o homem e a planta surgiram da cova aberta pela enxada do deus Enlil. [5], [6].

 

·       Os astecas acreditavam que o sangue humano oferecido ao Sol seria necessário para que ele nunca se apagasse. [7]

 

·       Vários povos acreditavam que uma divindade podia ser agradada com o sacrifício de um animal ou até mesmo de um ser humano. Muitos acreditavam que seriam beneficiados pelos deuses dessa forma. Essa crendice se espalhou por todo o mundo, entre diversos povos como: babilônios, gregos, celtas, germanos, etruscos, romanos, maias, polinésios, incas, astecas, moabitas, amonitas, hebreus, escandinavos, africanos, etc. Mas esse assunto, por causa da sua importância entre as religiões, terá que ser tratado noutro post. [8]

 

O problema de muitos judeus e cristãos é achar que as crenças de outras religiões são meras crendices e que as suas são todas verdadeiras. Mas não é bem assim. Todas as religiões têm crenças sérias e absurdas. Entre os hebreus (judeus) e cristãos não é diferente. Por exemplo:

 

·       Os hebreus acreditavam que podiam descobrir as possíveis traições de suas mulheres através de alguns procedimentos bizarros. Se o homem estivesse desconfiado da sua mulher, então, ele a levava ao sacerdote que a colocava diante do altar. O sacerdote colocava água santa num jarro, apanhava terra do chão e misturava na água. Aquela água continha uma maldição terrível. Então, com o jarro na mão, o sacerdote fazia a mulher jurar que não tinha traído o marido sob pena de sofrer as maldições contidas naquela água, caso estivesse mentindo. [9]. Com a discriminação contra as mulheres, sempre em nome de Deus, esse ritual somente era feito com elas. Se as esposas desconfiassem da traição de seus maridos, ficavam na desconfiança.

 

Tenho medo dessa idéia aparecer em algumas igrejas por ai, afinal, há muitos homens desconfiados de suas mulheres querendo saber “a verdade”. Nesse mundo com avalanches de informações falsas e verdadeiras, talvez eu esteja desinformado, e a campanha da água santa do jarro já esteja sendo usada.

 

·       Eles, os hebreus, ainda acreditavam que o sumo sacerdote podia passar para um bode os pecados de todos. Acreditavam que ao ser levado para o deserto, o bode levaria embora os pecados do povo para uma entidade chamada Azazel. [10]. (Bode azarado!) Ainda bem que Jesus mandou o povo se arrepender, converter, abandonar seus pecados para terem o perdão de Deus, senão estaríamos atrás de bodes até hoje.

 

·       Quando os hebreus sofriam alguma derrota, quando não obtinham a resposta de Deus através de seus rituais, eles acreditavam que o motivo seria alguém em pecado. Então procuravam um culpado, que geralmente era morto. Por exemplo: um dia, numa campanha militar contra os filisteus, o rei Saul consultou a Deus para saber se eles deviam atacar os filisteus de noite. Como não obteve uma resposta, então imaginou que alguém, entre os soldados, havia pecado. Fizeram um sorteio e descobriram o culpado. Era o seu filho Jônatas, que tinha ingerido um pouco de mel sem saber que o seu pai havia decretado um Jejum. Então o pai ordenou matar o próprio filho, porque ele provara um pouco de mel, quebrando um jejum imposto e que ele desconhecia. (Quebrar um jejum em prol de uma guerra é mais importante do que a vida de um filho?) Felizmente, o povo interferiu salvando a vida do rapaz. [11].

 

·       Se você não gosta de números e da matemática, tome cuidado! Muitas crenças absurdas existem nesse mundo pitagórico. No tempo de Moisés, havia um exército com 603.550 soldados. [12]. E na época do reinado de Davi, o exército era de 1.300.000 homens. [13].

 

Vamos pensar um pouco. O ser humano está constantemente cometendo erros graves. Mas vamos supor que, entre os soldados hebreus, cada um cometesse apenas um único pecado em toda a sua vida. Nesse caso, seriam 603.550 pecados no tempo de Moisés, que tinha um exercito de 603.550 homens, e 1.300.000 pecados no tempo de Davi. Considerando a idade média de 100 anos para cada um, então temos: 603.550 pecados /100 anos / 365 dias do ano = 16 pecados por dia, ou seja, 16 motivos por dia para terem uma derrota ou outro problema no tempo de Moisés.  No tempo de Davi seria: 1.300.000 pecados / 100 anos / 365 dias = 35 pecados por dia. É claro que os cálculos acima apenas estão nos dando uma idéia. Nenhum soldado combateria durante 100 anos diretos. E é claro que ninguém, na face da Terra, conseguiria cometer apenas um único pecado durante cem anos.  Mas não precisamos fazer cálculos minuciosos para provar que todo dia havia vários pecados. Isso quer dizer que as vitórias, as derrotas e outros problemas de Israel eram baseados em meras crendices. É claro que os erros cometidos trazem más conseqüências.  Mas não é como o povo hebreu imaginava.

 

Não estou querendo desmoralizar as crenças judaicas e a fé daqueles que seguem a Bíblia cegamente. Eu estudo a Bíblia com sensatez, separando as coisas com cuidado. Apenas estou dizendo que essas são crenças esquisitas e sem lógica.

 

Jesus não estabeleceu nenhuma crença sem sentido para os seus seguidores. Você não vê essas maluquices no evangelho original. Mas com o tempo, elas foram surgindo. E o cristianismo ficou superlotado de coisas absurdas, ligadas ao seu nome, todavia, nada tem a ver com ele. Veja alguns exemplos:

 

·       Os católicos medievais, na época das cruzadas, acreditavam que se fossem ao Oriente lutar pela libertação da Terra Santa, receberiam o perdão de todos os pecados, ou seja: alcançariam a indulgência plena. [14], [15], [16].

 

·       O dogma da transubstanciação, com todo respeito, tem cheiro de crença sem sentido. Por favor: tenho direito de pensar diferente. Pra longe de mim os horrores da Inquisição. Essa crença é tão séria que terá que ser discutida em outra mensagem. [17].

 

Eu amo os católicos, mas meu amor não é capaz de me cegar a ponto de não ver que muitas coisas são absurdas. São tantas que não será possível mostrar tudo aqui. Somente um livro poderia mostrar tudo. E Jesus, é claro, não tem nada a ver com todas essas coisas. Por outro lado, há muitos protestantes e evangélicos pensando que crendice na igreja é coisa de católico. Mas não é não. Infelizmente temos muitas crendices gospel.

 

·       Já vi uma igreja prometendo que, através de suas campanhas, as pessoas poderiam alcançar, dentro de certo período, o patrimônio de um milhão de reais.

 

·       Outra anunciava uma campanha em que as pessoas poderiam ter o seu patrimônio multiplicado 30 ou 60, ou até 100 vezes mais. Alguns não conseguiriam tanto, mas alcançariam, no mínimo, dobrar o seu patrimônio. (Seria bom eles limitarem a participação do povo nessas campanhas. Se essa moda pega, e os cristãos do mundo inteiro começarem a fazê-la com frequência, então teremos ricos cada vez mais ricos. Os recursos naturais do nosso lindo planeta “blue and green” vão se exaurir. E o Greenpeace não conseguirá fazer mais nada diante de tantos religiosos fanáticos, dobrando seu patrimônio, campanha após campanha, consumindo muito, produzindo muito, acabando com o resto da natureza que ainda temos. E com essa ganância “made in USA”, certamente não assinariam outros “protocolos de Kiotos” e as “Rios mais não sei quantos” continuariam apenas nos papéis.) Felizmente tudo não passa de crendices. Porque o ser humano precisa comer, beber, vestir, ter sua casa, estudar, cuidar da sua saúde, ter algumas coisas. Mas ninguém precisa ficar multiplicando patrimônios. Isso é ganância e avareza que Jesus não apoiou.

 

·       E aquela do ano 2009 em que as pessoas deveriam dar 900 reais para alcançar uma bênção financeira até o final do ano. Eu ainda não tive a oportunidade de ver os resultados. Pode até acontecer com alguns, afinal ha muita gente prosperando nesse Brasil, que venceu as crises. Mas sair por ai anunciando isso aleatoriamente, é muita audácia. Pena que esses doutores divindades americanos não apareceram por aqui na época em que o Brasil estava atolado na hiperinflação. Não digo isso porque acho Deus incapaz de fazer tal coisa. Ele, o dono das Galáxias, tem poder inimaginável. Mas prometer uma bênção, definindo valores e data marcada para qualquer um que resolver aceitar as condições, ai não tem outro jeito: é crendice mesmo. Mas vamos deixar o dinheiro de lado. Há muitos outros absurdos nessa área que não dá pra citar tudo aqui.

 

·       Uma teoria nojenta, não sei quem inventou, diz que os africanos são amaldiçoados, porque são descendestes de Cam, filho de Noé. Diz a história, que Noé, após o dilúvio, plantou uma vinha, fabricou vinho, bebeu bastante ou “encheu a cara”, como diz o brasileiro. Bêbado, tirou a roupa, e foi se deitar na sua barraca, “nuzinho da silva”, do jeito que nascera. Ele tinha três filhos: Sem, Cam e Jafé. O infeliz do Cam descobriu que ele estava nu e foi contar os outros dois irmãos. Então Sem e Jafé, pegaram uma capa e, para não verem o papai bêbado, foram de costa até ele e o cobriram. Quando ele acordou da bebedeira e soube que Cam tinha visto ele nu, o amaldiçoou dizendo que ele seria escravo de Sem e Jafé. [18]. Alguns imaginam que Cam teria feito algo mais (isso mesmo que você está imaginando) e que por isso a maldição foi pesada.

 

Então surgiu uma teoria dizendo que os africanos são descendentes de Cam e que por isso seriam amaldiçoados, dizendo ainda que, por esse motivo, eles formaram nações pobres, se tornaram escravos e adquiriram graves doenças. Dizem que essa maluquice surgiu na terra abençoada do tio Sam e veio parar nas terras do pau-brasil, de carona no evangelho americanizado.  [19], [20]. Mas também alguns afirmam que o padre Manoel da Nóbrega, do século XVI, disse o seguinte: “Por serdes descendentes de Cam e terdes descoberto a vergonha de seu pai deverão os negros serem escravos dos brancos por toda a eternidade”. [21].

 

Amo os africanos. Nasci, vivi, estudei e trabalhei entre afro-brasileiros, por isso, fico INDGNADO com tudo isso. O pior é que isso é idéia de gente gospel, “queimando” a boa imagem de Jesus. Com a consciência pesada por terem escravizado os povos africanos, tomado suas riquezas através das colonizações e do imperialismo econômico, muitos acataram essa loucura, tentando ficar em paz com Deus, mas acabaram se lambuzando ainda mais com o pecado do racismo. Mais honesto foi o papa João Paulo II que pediu perdão pelo males que a cristandade cometera contra eles. [22].

 

Ufa! Quanta coisa pesada nesse mundo de crendices, que muita gente acha que são crenças inocentes. Mas vou citar alguma coisa menos grave.

 

·       Alguns cristãos acreditam que, em momentos difíceis, poderá ser orientado pela Bíblia se abri-la ao acaso e ler o primeiro texto que avistar na página aberta. Ah, se cair numa páginas dessas que diz para matar, saquear e outras loucuras hebréias. [23].

 

·       Outros gostam de colar um salmo ou uma oração nas porta e janelas e outras coisinhas mais da religiosidade popular gospel, como se Deus, o Todo-poderoso, dependesse dessas coisas para agir.

 

O mundo gospel possui muitas crenças dessa natureza. Também seria preciso criar um livro para descrever tudo. Mas todas essas invenções afastando o povo do evangelho original serão vistas ao logo de outras mensagens.  Eu mostrei apenas algumas somente só para você entender bem o que é crendice. Mas eu vou mostrar uma crendice ainda maior e mais grave que, por causa da sua seriedade, terá que ser tratada separadamente em outra mensagem.

 

Praticamente todo mundo tem a sua crendice. Diante das grandezas do Universo e dos grandes mistérios espirituais, qualquer um pode cometer algum engano e desenvolver uma crença absurda. Mas precisamos tomar cuidado com as nossas crenças. Muitas delas são meras crendices que acabam nos escravizando. Há muitos artigos de fé ingênuos tirando o bem-estar das pessoas. Por esse motivo, precisamos sempre reavaliar as nossas crenças. O bom senso mais uma vez é necessário.

 

Precisamos orientar as pessoas sobre certos absurdos. Todavia, por causa da liberdade de crença que todos devem ter, precisamos fazer isso com cautela. Também não podemos obrigar ninguém a deixar as suas crendices. Todos devem fazer isso conscientemente. Aquelas que são criminosas, a justiça dos homens e a justiça divina cuidarão de tudo no tempo certo. Não precisamos fazer mais nada além de orientar, deixando cada um decidir seu caminho.

 

Se tudo que você viu era obra de Deus e não crendices dos homens, então porque Jesus veio e mudou tudo?... O que Deus fez precisou ser consertado? Ou muitas coisas eram obras de homens usando o nome de Deus indevidamente?

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[3] Religião Egípcia. Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

[4] Zeus. Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

[7] Império Asteca. Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.