Alucinógenos e embriagadores religiosos

Livres dos Fardos Religiosos

 

No início do século XX, no Brasil, um homem encontrou, através de um caboclo, uma bebida chamada Ayahuasca, preparada com talos do cipó caapi (Banisteriopsis caapi) juntamente com folhas da chacrona ou rainha (Psychotria viridis). [1], [2], [3]. Segundo relatos, o mestre fundador dessa religião, após tomar a bebida, ficou deitado numa rede, contemplando o luar. Quando o efeito da Ayahuasca foi aparecendo, ele teve visões. Viu a Lua se aproximar dele. Sobre ela, estava a Virgem Maria, que falou com ele, dando-lhe uma missão. Assim, ele fundou uma nova religião, onde os seus adeptos passaram a tomar do mesmo líquido, que passou a ser chamado de Daime. [4].

 

 

clip_image002[4]

Descrição: Psychotria viridis (chacrona). Data: 1799. Autor: Ruiz et Pavón. Fonte e licença DP.  

 

clip_image004[4]

Descrição: Cálice de vinho. Data: janeiro/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.  

Segundo a doutrina desse grupo religioso, as plantas usadas não são tóxicas nem alucinógenas, portanto, a bebida não é uma droga. O que ela faz é aumentar a consciência sobre nós mesmos, nos dando uma nova visão das coisas. [5]. Todavia, há quem afirma o contrário, dizendo que há uma substância alucinógena nas folhas da chacrona, denominada de DMT. Essa mesma substância se encontra na jurema (Mimosa hostilis) e no yopo (Anadenanthera colubrina) e que também são usados em rituais religiosos por outros grupos. [6], [7]. Mas a entidade defende dizendo que, na planta, há apenas enteógeno, uma substância que tem poder de ampliar nossos sentidos físicos e espirituais. [8].

 

Alucinógenos religiosos são substâncias que causam alucinações, utilizadas no meio religioso, como a Ayahuasca, por exemplo. Alucinação, nesse caso, é a percepção de sons e imagens irreais causados pelos alucinógenos. [9], [10]. E embriagadores religiosos são as bebidas usadas nas religiões, que podem deixar as pessoas em estado de embriaguês, que e a perturbação dos sentidos provocada pelo consumo exagerado de líquidos alcoólicos. [11].

Vimos, noutra mensagem, que alguns êxtases religiosos são conseguidos com o uso de drogas alucinógenas. A pessoa alucinada parece ter visões reais que, na verdade, são apenas fantasias. Uma pessoa neste estado pode ver coisas que estão ausentes, ou coisas inexistentes, ou ainda, perceber coisas presentes de forma alterada. [12], [13]. A aproximação da Lua carregando uma mulher até a rede, onde aquele homem estava deitado, com todo respeito, sem querer criar nenhum ofensa, mas apenas expondo o meu ponto de vista, mais parece uma imagem fantástica, provocada por aquela substância que demonstra ser realmente alucinógena.

 

Por causa das alucinações provocadas, muitas plantas e cogumelos foram considerados divinos. Por isso, o uso de alucinógenos tem sido muito comum em diversas religiões do mundo, há séculos. [14].

 

·       Na Índia, era usada uma bebida feita de alguma planta alucinógena, conhecida como soma ou haoma. [15].

·       No zoroastrismo, o haoma seria a bebida equivalente ao soma. [16].

·       A jurema, uma árvore muito comum no litoral nordestino do Brasil, para a população indígena, é uma árvore sagrada.[17]. Os índios e adeptos de um determinado culto religioso muito praticado no Brasil, têm usado a sua casca e as suas raízes para prepararem uma bebida mágico-sagrada, afim de ajudar as pessoas a entrarem em contato com o mundo espiritual. [18].

·       O meimendro, uma erva rústica e malcheirosa, foi muito utilizado por feiticeiros, mágicos e profetas para produzirem visões. [19], [20].

·       O movimento religioso rastafari adotou o uso da maconha para ajudar na meditação. [21].

·       Além dessas, muitas outras plantas alucinógenas já foram usadas, principalmente entre os ameríndios, como: paricá, tabaco, datura, caapi e cactos como o peiote, de onde se extrai a mescalina, substância alucinógena que deu origem ao peiotismo, cerimônia em que a droga, ministrada como sacramento, pode deixar as pessoas em estado de transe. [22], [23].

·       Cogumelos alucinógenos também já foram usados, inclusive no México e na Sibéria. [24], [25].

 

Embriagadores religiosos também são coisas antigas.

 

·       Há evidências do consumo da cerveja no Egito, na China e na Mesopotâmia, há pelo menos 4000 anos a.C. [26], [27].

·       Segundo tradições egípcias, o deus Osíris ensinou aos homens a fabricação de uma bebida com características iguais às da cerveja. [28].

·       Arqueólogos encontraram um poema sumério em homenagem à deusa da cerveja, Ninkasi. [29].

 

·       Desde os tempos pré-históricos, a uva vem sendo utilizada pelo homem. O vinho é uma bebida milenar feita com o suco dessa fruta e tem sido muito utilizado por diversos grupos religiosos.

·       No quarto milênio antes de Cristo, na Mesopotâmia, há evidência do cultivo de videiras.

·       Hieróglifos de 2400 a.C. demonstram que já se consumia o vinho no Egito. [30], [31].

·       Os gregos tinham o deus do vinho chamado Dionísio, e os romanos cultuavam Baco como divindade da mesma bebida. [32], [33].

·       A Bíblia fala sobre o vinho pela primeira vez em Gênesis, quando Noé plantou uma vinha e produziu o vinho, com o qual ficou embriagado. [34].

·       Em muitas religiões, inclusive entre os hebreus, era comum realizar rituais com o vinho. [35]. Até bebida forte era usada nas suas cerimônias religiosas. [36].

·       O profeta Isaías criticou a embriagues de profetas e sacerdotes. [37]. Criticou também a bebedeira das autoridades de Israel. [38].

·       O profeta Miquéias falou dos profetas que pregavam mentiras e falsidades, profetizando do vinho e da bebida forte.[39].

 

O primeiro milagre de Jesus foi transformar água em vinho, numa festa de casamento, em Caná da Galiléia. [40].  E na época da festa da Páscoa, Jesus ceou com os seus discípulos. O vinho, um alimento antigo e popular, apresentado e consumido na entrada da ceia judaica, foi indicado por Jesus para servir de símbolo do seu sangue. [41]. Com esses gestos, Jesus demonstrou que não é contra o uso do vinho. Todavia ele foi contra a embriaguez. [42]. Por isso Paulo, discípulo de Jesus, aconselhou: “E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito...” [43]. Ele e também Pedro condenaram as bebedices. [44]. O bispo e o diácono não podiam, de forma alguma, na visão de Paulo, ser pessoas que se embriagavam com esse líquido. [45].

 

Tudo isso indica que o cristão pode beber vinho, mas com toda moderação. Isso impede que as pessoas tenham visões ou alucinações falsas, além de outros transtornos que a bebida causa.

 

Diante de tudo isso que vimos, podemos concluir que várias crenças religiosas foram baseadas em fantasias e ilusões de pessoas com delírios ou em estado de êxtase provocados por alucinógenos e bebidas embriagadoras. Muitas manifestações religiosas, com certeza, surgiram dessa forma. Como vimos, diversas pessoas ligadas à religião usaram tais coisas. E é por isso que encontramos tantos relatos e crenças extremamente fantásticas entre as diversas religiões.

 

Com todo respeito às diversas religiões e igrejas, precisamos rever as nossas crenças e seguir o lado do bom senso. Não podemos acreditar em tudo que andam dizendo por ai. Também não devemos usar alucinógenos para tentar entrar em contato com o mundo espiritual. As alucinações que eles vão provocar não significam revelações divinas. A humanidade não pode mais ser escravizada por ilusões e fantasias surgidas nas mentes alucinadas e embriagadas.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br